segunda-feira, 31 de março de 2008

Aniversário de uma tragédia: reflexão





Há 44 anos, o Brasil passava pelo pior dia de toda sua história. No dia 31 de março armou-se o golpe militar de 1964. Nesse dia, as tropas do gal. Olímpio Mourão Filho partiram de Juiz de Fora rumo ao Rio de Janeiro, pois na noite anterior o presidente João Goulart (Jango) fizera no Automóvel Clube, centro da cidade maravilhosa, um acalorado discurso em defesa dos militares de baixa patente, os chamados praças. Os militares já bastante insatisfeitos com Jango, consideraram tal ato a gota d'água, afinal, segundo eles, o presidente da república estava incentivando a quebra da hierarquia e da disciplina, os principais pilares da caserna.

Não obstante, o golpe de 1964 foi gestado durante pelo menos 15 anos. Em 1949, foi fundada no Rio de Janeiro a Escola Superior de Guerra (ESG), instituição responsável pela elaboração da doutrina de segurança nacional e pela sofisticação da conspiração militar. O golpe poderia ter sido dado em 1954, mas o suicídio do presidente Vargas acabou sendo um golpe de mestre, na medida em que a comoção popular inviabilizou o ingresso dos militares no poder àquela altura. Outras tentativas foram dadas, porém sem muito clima para que o golpe lograsse êxito.

Os desequilíbrios econômicos provocados pelo governo JK (1956-1961), deixaram para Jango um péssima herança. Assim sendo, seu governo (1961-1964) conviveu com indicadores econômicos muito ruins, a inflação foi gigantesca e o crescimento do PIB foi pífio. Isso ajudou em muito a criar um clima favorável para o levante. A economia é um elemento fundamental para viabilizar ou não um golpe. Se um governo está bem neste quesito dificilmente cairá.

No dia 13 de março de 1964, na central do Brasil, Jango anunciou que seu governo levaria a frente as chamadas reformas de base. Era um conjunto de reformas, fundamentais para o avanço de qualquer país, mas que assustaram profundamente os setores conservadores do Brasil. Seriam feitas reformas nos setores agrário, habitacional, tributário, educacional, entre outros. Isso mexeria nas estruturas do Brasil e enfim colocaria o país no caminho da dita modernidade. Ora, o Brasil é um dos poucos países do mundo que não realizou a reforma agrária. Ela historicamente é uma bandeira das revoluções burguesas, pois favorece o melhor aproveitamanto da terra, aumentando a produção e o consumo, elementos salutares para o desenvolvimento do sistema capitalista. De qualquer modo, aqui no Brasil a reforma agrária acabou se tornando bandeira das esquerdas.

A maior prova da reação da direita brasileira às reformas foi a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, ato feito em resposta ao comício de Jango na central do Brasil. Essa marcha acabou reunindo cerca de 300 mil pessoas na capital paulista, o que demonstrou que um golpe teria o apoio de parte significativa da sociedade brasileira. O ato repudiou o comunismo e o sindicalismo e seu principal slogan era o sugestivo: "Deus salve o Brasil". O recado estava dado.

Portanto, este era o cenário. Uma economia desarranjada, um quadro político de tensão e radicalismos, além de turbulências dentro dos quartéis. Tudo isso no contexto da guerra fria, o que fazia com que os EUA tivessem uma atenção redobrada aos acontecimentos do Brasil. Segundo os estadunidenses, o Brasil, em hipótese alguma, poderia se transformar numa nova Cuba. E eles participaram do golpe, com a Operação Brother Sam. Navios com armas e combustível foram enviados para o litoral do Espírito Santo e seriam usados caso houvesse resistência do janguismo. Isso não ocorreu e os EUA acabaram não participando diretamente do golpe no Brasil, como o fizeram no Chile. De qualquer forma, deram o respaldo, o que já é bastante significativo.

Dito tudo isso, num aspecto não podemos nos enganar. O golpe de 1964 não foi meramente militar e sim civil-militar. Apoiaram e legitimaram o golpe: a CNBB (cúpula da Igreja); a CNI e a FIESP (burguesia nacional); a OAB (que deveria primar pela legalidade, mas não, fez o contrário); a grande imprensa (menos o jornal Última Hora e a TV Excelsior); e grande parte da classe política (a UDN como um todo e grande parte do PSD). Aliás, nesse sentido vale ressaltar que o golpe efetivamente foi dado pelo presidente do Congresso Nacional, o senador Auro de Moura Andrade. Os militares no dia 1º de abril se uniram em torno do golpe e ameaçaram prender Jango, mas ele ainda não tinha sido deposto. Até que numa tumultuadíssima sessão no Congresso, o senador Auro declara vaga a presidência da república, sendo que o presidente Jango estava em Porto Alegre. A vacância só poderia ser declarada caso o presidente estivesse no exterior. Nesse momento, foi rasgada a constituição. Na madrugada do dia 1º para o dia 2, o presidente do Congresso empossou como presidente provisório da república, Ranieri Mazzilli, presidente da Câmara dos Deputados. Era a conclusão do golpe. O interessante e bizarro é que esse foi o único golpe de Estado dado pelo chefe do poder legislativo de que se tenha notícia.

Quem perdeu? Naquele momento: o PTB (partido de Jango, que logo em seguida teria vários parlamentares cassados), a UNE (estudantes), o CGT (sindicalistas) e a parte minoritária da Igreja (membros seguidores da teologia da libertação) e da Imprensa. O jornal Última Hora passou a se enfraquecer cada vez mais depois do golpe e a TV Excelsior não teve sua concessão pública renovada, em 1970, e fechou suas portas. Mas quem perdeu de verdade mesmo foi o país como um todo. O Brasil naquela época estava caminhando no rumo certo. Nunca houve tantas pessoas inteligentes juntas pensando o país. Tínhamos na educação, Anísio Teixeira e Paulo Freire. Nas ciências sociais, Florestan Fernandes, Darcy Ribeiro e Sérgio Buarque de Hollanda. Na economia, Celso Furtado. Na política, Miguel Arraes e Leonel Brizola. Na arquitetura, Oscar Niemeyer e Lúcio Costa. Na música, a Bossa Nova, o samba e a chamada MPB, que estavam no auge de sua qualidade. No cinema, o Cinema Novo. No teatro, José Celso Martinez e Sérgio Brito. Na literatura, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Mello Neto etc. Na imprensa, Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta), Alberto Dines e toda a turma que depois veio a fazer parte de O Pasquim. Enfim, o Brasil nunca foi tão inteligente e toda essa brilhante geração foi em diferentes matizes mutilada.

O país perdeu uma ótima oportunidade para se entender e para se encontrar, já que gente gabaritada para isso não faltava. Tudo isso porque uma elite retrógrada não aceitou dividir nada em 1964. Essa mesma elite é hoje a principal responsável pelas desigualdades sociais e pela violência no país. Isso quem falou foi o ex-prefeito de São Paulo, o conservador Cláudio Lembo (DEM), no contexto dos ataques do PCC em São Paulo, no ano de 2006.

Não querendo terminar o texto de forma tão amarga, acredito que hoje o Brasil vive seu melhor momento desde o início da década de 60. A economia vai bem, as preocupações com educação e saúde são crescentes e a democracia parece estar consolidada. Portanto, ainda que 1964 tenha representado um retrocesso de 50 anos, é hora de olhar para frente e recuperar o tempo perdido. O Brasil há de ser um país mais inteligente, justo e solidário!

segunda-feira, 10 de março de 2008

Crise na América do Sul


Semana passada, o assassinato de Raul Reyes, a liderança nº 2 das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARCs), sacudiu a América do Sul. Esse acontecimento trouxe de forma latente novas reflexões sobre o continente americano em geral e sobre a Colômbia em particular. Nessa pespectiva, para que essas reflexões sejam melhores é fundamental historicizar a questão.

Primeiramente, é preciso se perguntar de onde vem essa grande violência na Colômbia. Bom, o primeiro acontecimento elucidativo dessa problemática nos remete ao ano de 1948. Nesse ano, o candidato liberal à presidência da república, José Gaitán, foi assassinado por conservadores (vale dizer que liberais e conservadores monopolizavam o poder na Colombia à época). Isso desencadeou uma onda de violência que ficou conhecida como bogotazo. Nos anos que se seguiram, houve uma guerra civil no país. De uma lado estavam os conservadores, do outro estavam liberais e socialistas (novos atores políticos, então). Esse período ficou conheciso como la violencia (1948-1953).

Até que em 1964, surge as FARCs, então o braço armado do Partido Comunista da Colômbia, que estava na ilegalidade. As FARCs, já que não tinham condições de agir dentro da legalidade, optou por práticas terroristas, como seqüestros a autoridades. Isso pode servir para repudiar a organização, afinal o terrorismo não é nada simpático mesmo. Mas a grande questão vem a seguir. No início dos anos 80, as FARCs resolveram deixar as armas para se tornarem apenas um partido político. O problema é que eles não foram aceitos no jogo, sendo massacrados pelo poder instituído, a essa altura já fortemente ligado aos EUA. O saldo disso foi cerca de 3.000 assassinatos entre seus militantes, fazendo com que aos poucos a organização fosse novamente jogada para a clandestinidade. No ano de 2002, as FARCs passaram a ser tão somente um grupo guerrilheiro.

Para as Farcs se sustentarem eles passaram cada vez mais a atuar no narcotráfico. Os moralistas de plantão consideram isso inaceitável e os tratam simplesmente como bandidos. Ora, mas na Colômbia os paramilitares de direita, base de sustentação do governo de Álvaro Uribe, também atuam fortemente no tráfico de drogas. Vale salientar também, que dois ministros de Estado de Uribe e 32 deputados de seu partido foram julgados e condenados pela justiça colombiana, por ligações com o tráfico de entorpecentes. Além disso, tanto as FARCs, quanto os paramilitares praticam o seqüestro e possuem reféns. Portanto, não há santos nessa história.

Mais um elemento importante para entender a violência atual na Colômbia, é o dedo dos Estados Unidos no país. A título de exemplo, a Colômbia é hoje o terceiro país do mundo a receber ajuda militar e econômica dos EUA, ficando atrás apenas de Egito e Israel. Essa interferência estadunidense se tornou mais contundente no ano 2000, com o Plano Colômbia. O plano visava em princípio ajudar as autoridades colombianas no combate ao tráfico de drogas no país. Nada mais hipócrita do que isso, tendo em vista que o governo colombiano também atua no tráfico. Além disso, por que os EUA não fecham suas fábricas de armas, já que eles se preocupam tanto com o narcotráfico internacional? Não há tráfico de drogas sem armas e a Colt sabe muito bem disso!

O fato é que o referido plano serviu para os EUA aumentarem muito sua influência na Colômbia. Uma prova disso é exatamente o assassinato de Reyes na semana passada. A localização do guerrilheiro foi feita com ajuda da CIA, que atua livremente no país. Assim, os EUA - que vêm perdendo parte de sua influência na América do Sul, afinal alguns governos (Venezuela, Equador e Bolívia) são frontalmente contra o gigante do norte - jogam todas as suas fichas na Colômbia. Cada vez mais a Colômbia torna-se o "porta-aviões" do Tio Sam na parte sul do continente.

Voltando à morte de Raul Reyes, vale chamar atenção para duas ilegalidades. A primeira é a condenação à morte sem prévio julgamento, o que caracteriza a ação como assassinato por parte do Estado colombiano. A segunda, a que mais deu pano para manga, foi a invasão ao Equador por parte da Colômbia. A invasão do espaço aéreo ou terrestre é tido como uma prática absolutamente condenável dentro das relações internacionais. E foi isso que a Colômbia, com a ajuda dos EUA fez. Tal atitude desencadeou uma grande crise diplomática no continente. Além do Equador, Venezuela e Nicarágua também romperam relações diplomáticas com a Colômbia. Equador e Venezuela chegaram inclusive a militarizar suas fronteiras, mas felizmente não se chegou às vias de fato.

O que Uribe quis com isso? Já há algum tempo seu governo vem apertando o cerco contra as FARCs. Esse episódio é só mais um elemento disso. As FARCs têm na Colômbia hoje, uma altíssima impopularidade, sobretudo em função dos seqüestros que o grupo pratica. Álvaro Uribe sabe bem disso, e quer se aproveitar dessa situação para obter um terceiro mandato, mediante uma emenda constitucional. Em sua visão, enfraquecendo ou eliminando as FARCs, o apoio da população o conduzirá para mais alguns anos de poder. O problema é que as FARCs contam com um número significativo de guerrilheiros e Uribe não conseguirá acabar com eles. Portanto, o ideal é que em vez de uma solução militarista fosse tomada uma solução negociada, já que um número muito grande de reféns está em jogo.

Em suma, em vez de repressão cabe negociação. As FARCs, que um dia já tentaram ser apenas um partido político, pode voltar a ter essa pretensão. Para isso, é necessário que a organização seja chamada à mesa de negociações e que tenham espaço para a atuação institucional. Caso as ações continuem a ser meramente militar as perspectivas de paz passam a ser praticamente nulas. E a quem interessa isso?

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Repúdio ao Flamengo, a maior vergonha do Brasil






Sempre detestei o Flamengo. Contudo, nesta semana novos elementos afloraram ainda mais meu ódio e repúdio ao Clube de Regatas do Flamengo, uma instituição lamentável. Os referidos elementos giram em torno dos seguintes temas: arbitragens "mandrakes" e beneplácito da grande imprensa em relação aos "favorecimengos".

No último domingo, Flamengo e Botafogo decidiram a Taça Guanabara. E mais uma vez a arbitragem foi rubro-negra. Não sou tolo de dizer que, a rigor, não houve penalty no lance do gol de empate do Flamengo ou que o segundo cartão amarelo do jogador Lúcio Flávio não foi justo. Entretanto, penaltys como aqueles acontecem aos montes todos os jogos. Nesse caso, quando o juiz é medroso ou mal-intencionado ele escolhe à dedo qual penalty marcar e a que equipe beneficiar com isso. É o que se convencionou chamar, no mundo do futebol, de "mandrakismo". Como o penalty foi "mandrake" (ainda mais por se tratar de uma decisão), os jogadores do Botafogo reclamaram muito e Lúcio Flávio tomou seu primeiro cartão amarelo, o que posteriormente culminou em sua expulsão. O resultado disso, não preciso nem me reportar.

Como se isso não bastasse, na mesma semana jogaram pela Copa Libertadores, Flamengo e Cienciano. Outra arbitragem vergonhosa. Gol do Cienciano claramente mal anulado, além de gol com matada no braço deram vitória ao Flamengo. Mais uma violação à justiça.

Tudo isso já é bastante revoltante. Mas nada é tão ruim que não possa piorar. E o que me revoltou, ainda mais, foi a repercussão dada pela grande mídia após os dois jogos. Primeiramente, lances dos dois jogos com edições extremamente parciais. No entanto, o pior de tudo foi ver nove entre dez comentaristas dizerem que as arbitragens dos dois jogos foram normais, ou no mínimo isentas, já que segundo eles: "errou-se para os dois lados". Ora, não se pode, em hipótese alguma, analisar uma arbitragem pelos lances soltos e sim pelo contexto. Isso é trivial. Todos sabem disso, mas, infelizmente, até mesmo alguns jornalistas bem formados acabaram entrando na onda rubro-negra e incorrendo nesse erro grosseiro.

Um dado emblemático acerca da histórica simpatia dos árbitros em relação ao Flamengo, se deu no Linha de Passe, mesa redonda transmitida pela ESPN Brasil. O programa é bastante interativo, uma vez que dezenas de e-mails de assinantes são lidos ao vivo durante seu curso. Nesta semana, por motivos óbvios, a tônica do programa foi a arbitragem. E lá pelas tantas, foi solicitado que os assinantes mandassem e-mails que apontassem jogos em toda a história, dentro dos quais o Flamengo tenha sido prejudicado. Ora, isso foi solicitado para atestar que todos os clubes são em algumas vezes beneficiados, em outras prejudicados. Até aí nada de mais, eu concordei com a solicitação. Eis que, até o final do programa, um (pasmem, apenas um) jogo em que o Flamengo tenha sido prejudicado pela arbitragem foi lembrado pelos e-mails dos assinantes (obviamente, em grande número, flamenguistas). Foi a final do campeonato carioca de 1989, em razão do leve empurrão do atacante Maurício em Leonardo, no gol do título botafoguense. Portanto, em 112 anos de história, seus torcedores se recordam de apenas um jogo em que o clube tenha sido prejudicado. Imagina se fosse o contrário, se a solicitação fosse feita para que os torcedores dos outros clubes se lembrassem das vezes em que o Flamengo foi beneficiado? Só eu, lembro de dezenas gravíssimas.

Até mesmo o time da década de 80, embora reconhecidamente bom, necessitou por várias vezes do auxílo da arbitragem para obter suas glórias. A maior vergonha que eu já vi, em toda minha vida, no tocante à arbitragem, foi no jogo FLamengo e Atlético-MG(http://br.youtube.com/watch?v=PwwXKwHm6BI), pela Copa Libertadores de 1981. O pernicioso e abominável José Roberto Wright (Wrong, para muitos) assaltou o time do Atlético, simplesmente expulsando cinco de seus jogadores e dando a vitória de bandeja ao Flamengo. Alíás, essa foi a vez em que o Flamengo conquistou sua única Copa Libertadores e a década de 80 foi a única verdadeiramente vitoriosa para o Flamengo. Eu tenho muitas suspeitas acerca da lisura desses tíulos conquistados. Em suma, vale para o futebol brasileiro também a famosa frase dos economistas sobre o Brasil: "década de 80, a década perdida".

Isso é o Flamengo. Uma instituição, em sua essência bastante elitista (haja vista sua localização, entre Gávea, Leblon e Lagoa Rodrigo de Freitas), mas que foi transformada proposital e perversamente em fenômeno de massa. Por que perversamente? Porque seus torcedores, desavisadamente, acreditam que o clube é o "povão" e não fazem idéia de que o clube já foi fortemente racista (não aceitava negros e mulatos em seus quadros) e aristocrático (tal qual seu irmão siamês, o Fluminense). Assim, o trabalho iniciado pela Rádio Nacional e consolidado pela Rede Globo foi muito competente e fazem com que os flamenguistas acreditem que torçam para o clube do povo. Mal sabem eles que, em sua maioria, caso quisessem, não conseguiriam sequer chegar perto das dependências do clube. Entrar então, nem pensar. Eles não seriam bem vistos no clube localizado no ponto mais nobre da zona sul carioca. É muita leviandade!

Além disso, as razões para o repúdio ao Flamengo não param por aí. Será que é coincidência que seu mascote seja um urubu? Ninguém gosta de urubu, um animal nem um pouco simpático, tal como os flamenguistas. Além de chatos e desagradáveis, 95% de seus torcedores não entendem nada de futebol, pois não acompanham de perto o esporte bretão (dos 5% restantes, eu não conheço praticamente ninguém, mas eles devem existir). Em suma, é um fenômeno parecido com o catolicismo no Brasil, existem os praticantes e os não-praticantes, sendo que os últimos são a maioria. Assim, a torcida do urubu pode até ser a maior do Brasil, mas se se contarem apenas os praticantes (os que acompanham e entedem de futebol), ela fatalmente não será. Afinal, a maioria são flamenguistas não-praticantes.

Não acabou. A maioria das palavras que têm o prefixo "fla" designa coisas ruins. Flatulência é algo desagradável. Flacidez é anti-estético. Flagelo é desastroso. E Flamengo é a síntese de tudo isso: desagradável e desatroso. Anti-estética fica sendo sua torcida, para completar.

No mais é isso. Poderia me alongar ainda muito mais para mostrar que o Flamengo não é uma coisa boa. Mas fico por aqui. Não sem antes cantarolar: "Tu és time de otário e cuzão; puta, viado e ladrão; tomá no cu mengo. Eu sempre te odiarei; onde estiver xingarei; tomá no cu mengo".

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

E agora, Cuba?




Esta semana, el comandante Fidel Castro anunciou que está deixando, definitivamente, o poder em Cuba. Fidel era o presidente do Conselho de Ministros (chefe de governo), desde 1959; comandante em chefe das Forças Armadas, desde 1976; e presidente do Conselho de Estado (chefe de Estado),desde 1976. Em 2006, devido a uma doença intestinal de Fidel Castro, todas essas funções já haviam sido transferidas, provisoriamente, para Raul Castro, seu irmão mais novo. Mas e agora, o que será de Cuba?

Tudo é muito incerto. A primeira hipótese é que Raul Castro continue exercendo as três funções e não haja nenhuma grande mudança no regime. A segunda é que Raul divida o poder e continue sendo só chefe de governo. Nesse caso, algumas mudanças poderão acontecer. De todo modo, os cubanos exilados que vivem na Flórida começam aos poucos a se mexer. Eles, por exemplo, influenciaram e garantiram uma ampla vitória para o candidato John McCain, nas primárias republicanas no estado da Flórida. McCain já declarou na campanha presidencial que pretende continuar o processo de asfixia total à Cuba, discurso que converge totalmente com as posições dos exilados cubanos, visto que eles um dia pretendem retornar à ilha e ganhar o poder. Nesse sentido, a continuação do embargo econômico representa o enfraquecimento do regime castrista, na visão dos cubanos da Flórida.

As incertezas só aumentam quando se cogita o que acontecerá depois da morte de Fidel Castro (81 anos). Como se isso não bastasse, Raul Castro (76 anos), em tese, também não viverá muitos anos. Portanto, serão os políticos mais jovens de Cuba que deverão tomar conta do país em breve. Com forte pressão dos exilados, obviamente.

O regime de Fidel construiu uma sólida estrutura social na ilha. Alguns indicadores sociais são equivalentes ou melhores do que os de países do chamado primeiro mundo. Nas áreas de educação, esporte e saúde, Cuba dá um banho. Pode-se se citar como exemplo o fato de a mortalidade infantil em Cuba ser menor do que em Nova Iorque. De outro lado, para garantir tudo isso Fidel governa de maneira autoritária, não permitindo dissuasões.

É muito problemática a dicotomia liberdade/igualdade (duas das três bandeiras da Revolução Francesa). Afinal, ao promover-se a igualdade poda-se a liberdade e vice-versa. Fidel tornou a ilha mais humana e igualitária, mas para tanto suprimiu algumas liberdades civis e políticas. Ao contrário disso, a maioria dos países capitalistas (vide o Brasil) promove uma ampla liberdade, principalmente de mercados e capitais, e constrói fortes desigualdades, já que nesse caso vale o salve-se quem puder.

Acredito eu que a maioria dos cubanos sabem mensurar tudo isso. Eles sabem que não têm liberdade para criticar o regime ou para ter acesso a todos os bens de consumo que o capitalismo oferece. Mas também sabem que têm educação e saúde de qualidade e mais do que isso vivem num país com índices de criminalidade ínfimos. Vale lembrar que nas pesquisas de opinião, os eleitores brasileiros sempre colocam segurança, saúde e educação entre os principais problemas a serem resolvidos pelo Estado. Em Cuba tais problemas praticamente inexistem. Em suma, se existem muitos cubanos que deixaram ou pensam em deixar o país, há inúmeros outros que demonstram o desejo contrário. Talvez o exemplo mais emblemático disso seja o boxeador Teófilo Stevenson (tricampeão olímpico). Ele inúmeras vezes foi convidado a deixar Cuba para lutar boxe profissionalmente nos EUA e tornar-se um milionário. Stevenson recusou todas as propostas alegando que sem o regime castrista provavelmente não teria tido uma boa educação e nem aprendido a lutar boxe. Em outras palavras, sabe que poderia não ter chegado a lugar nenhum sem o respaldo das práticas socialistas, ou seja, que sua brilhante carreira foi fruto de um esforço coletivo.

Portanto, pode ser que a maioria dos cubanos desejem a livre iniciativa e maiores oportunidades de consumo. Porém, duvido que eles queiram isso em detrimento do que foi conquistado em termos sociais. Alguns países do leste europeu se arrependem até hoje de terem jogado fora totalmente as benesses do período socialista, em nome de uma transição "tudo ou nada" para o sistema capitalista.

Para finalizar, é muito provável que haja mudanças em Cuba pós-Fidel Castro, no entanto é desejável que ainda permaneça vigorando na ilha a belíssima frase: hoje, em todo o mundo, milhões de crianças dormirão nas ruas, nenhuma delas é cubana!

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Eleições "democráticas" nos Estados Unidos





É muito grande a expectativa do mundo acerca da eleição presidencial nos EUA em 2008. A maior parte do planeta já não aguenta mais a "doutrina Bush", com todas as suas prepotências e bravatas, tais como: "eixo do mal", "guerras preventivas" e combate inexorável ao terror "em nome da segurança da América e do mundo civilizado". Em suma, a maior parte das pessoas desejam uma oxigenação nas relações entre os EUA e o restante do mundo.

Certamente, não será o senador republicano pelo estado do Arizona (sim, um dos estados sulistas mais conservadores dos Estados Unidos) John McCain que trará essa desejável renovação. É bem verdade que McCain não está entre os republicanos mais conservadores, mas de qualquer modo é um homem da guerra fria, afinal é um veterano da Guerra do Vietnã, além de ser filho de militares estadunidenses.

Conseqüentemente, a referida renovação deverá vir do lado democrata. Estão no páreo, entre os democratas, duas interessantes novidades: os senadores Barack Obama (Illinois) e Hillary Clinton (estado de Nova Iorque). Estou fazendo questão de mencionar os estados que os três principais candidatos à Casa Branca representam, porque o abismo de mentalidade ainda é muito grande entre o norte e o sul do país. Em outras palavras, no tocante à política, Illinois e Nova Iorque são estados historicamente mais progressistas do que Arizona, muito famoso nos filmes de bang bang.

Por que Obama e Hillary são novidades, já que esta, por exemplo, foi por oito anos a primeira-dama do país? Pelo fato de Hillary ser mulher e Obama ser negro. Essas, sem dúvidas, são as principais novidades. Simples assim.

Porém, conforme dito acima, Hillary Clinton fez diretamente parte do poder por dois mandatos (1992-2000). O mais impactante é que caso ela vença, a família Bush e a família Clinton cumprirão o sexto mandato consecutivo. As duas famílias se revezam no poder desde 1988. Nesse caso, a novidade efetiva é mesmo Obama.

Barack Obama é filho de pai queniano com mãe estadunidense. Atualmente, é o único senador de ascendência africana dos EUA. Além disso, ele tem apenas 46 anos, idade muito reduzida no que se refere aos padrões tradicionais do universo político. Obama tem um discurso bastante afiado, uma excelente oratória e uma visão holística do mundo (pelo menos é isso que ele vem apresentando na campanha). Esses são seus atributos e suas armas para derrotar primeiramente Hillary nas primárias democratas, para em seguida derrotar o candidato republicano (provavelmente McCain) na eleição de novembro. Estou com Obama, mas Hillary também não seria ruim para o mundo não. McCain seria péssimo.

Para finalizar, vale duas reflexões sobre a democracia nos EUA. A primeira delas (já batida, mas nunca é demais lembrar) é chamar a atenção para engessadíssimo bipartidadarismo estadunidense. Existem vários partidos no país, o problema é que só o Democrata e o Republicano têm chances reais de chegar à Casa Branca. Isso porque não existe lá uma justiça eleitoral nacional, ou seja, são os estados membros da federação que organizam o pleito. Sendo assim, cada estado tem a prerrogativa de registrar ou não dado partido político. É óbvio que muitos estados optam por só colocarem dois nomes nas cédulas, o do candidato democrata e o do republicano. Isso não me parece muito salutar para a democracia. Se é verdade que no Brasil temos partidos demais, nos EUA existem (efetivamente) partidos de menos. Cabe um meio termo, cinco partidos me parece próximo do ideal.

A outra é lembrar que a eleição presidencial estadunidense é indireta. Um candidato pode ter mais votos populares e não levar. Isso aconteceu com Al Gore em 2000. Ele teve mais votos populares que Bush naquele pleito, porém teve menos delegados no colégio eleitoral. Isso se deu porque o candidato que tem mais votos populares em determinado estado (ainda que seja por uma diferença mínima) ganha todos os delegados para o colégio eleitoral, onde se decide tudo. Em 2000, Bush teve cerca de 500 votos populares a mais do que Gore, na Flórida (vale lembrar que isso se deu graças a uma fraude eleitoral). A Flórida tinha direito a 25 delegados no colégio eleitoral. Mesmo com uma diferença ínfima de votos em relação a seu oponente, Bush levou todos os 25 delegados. Esse estado acabou decidindo a parada, já que a eleição foi apertadíssima. Não seria mais razoável Bush ter levado 13 delegados e Gore 12?

Essas reflexões são importantes porque geralmente ninguém critica a democracia estadunidense. Muita gente gosta de se meter em assuntos internos da Venezuela e da Bolívia, descaracterizando e deslegitimando a democracia nesses países, mas não fazem o mesmo em relação aos EUA. Nunca vi ninguém defender uma intervenção externa, para garantir que o presidente dos EUA seja eleito pelo voto polular. Para a "América" vale a autodeterminação dos povos!

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Con Chávez hasta 2026

Tenho me incomodado muito, nos últimos anos, com a campanha nefasta feita pela grande mídia brasileira contra o presidente da Venezuela, Hugo Chávez. Chamam-no, indiscriminadamente, de ditador, autoritário, demagogo e até mesmo (pasmem), de totalitarista. Ora, se pontuarmos todos os aspectos de seu governo (desde 1999), não consigo encontrar nenhuma prova contundente de seu suposto tiranismo.

Atacam-no, com veemência, pelo fato de ter tentado dar um golpe de Estado no ano de 1993. Chávez foi mal sucedido nessa tentativa e acabou sendo preso. Cumpriu sua pena e foi eleito democraticamente em 1999. Ora, quando analisamos as passagens de Getúlio Vargas na política brasileira fica muito bem diferenciado o seu governo ditatorial (sobretudo, Estado Novo) e seu governo democrático (1951-1954). Portanto, o que importa são as práticas de Chávez a partir de 1999, momento em que ele efetivamente chega ao poder e governa a Venezuela.

Cotidianamente, jornalistas da grande imprensa brasileira acusam o presidente da Venezuela de controlar os poderes legislativo e judiciário e não dão maiores explicações sobre isso. Chávez, efetivamente, controla esses dois poderes. No caso do legislativo, isso se deu em função de uma manobra - no mínimo desestabilizadora, para não dizer golpista - desastrada da direita venezuelana. Ela simplesmente resolveu boicotar as últimas eleições legislativas, considerando, talvez, que isso deslegitimaria Hugo Chávez. É óbvio que não o deslegitimou e o partido chavista passou a ter todas as cadeiras do congresso venezuelano. No caso do judiciário, na Venezuela, assim como no Brasil e na maioria das democracias ocidentais, é o presidente da república quem nomeia os ministros da suprema corte. Portanto, não enxergo o autoritarismo.

Com maioria no Congresso, o governo de Hugo Chávez promulgou uma nova constituição para a Venezuela. Muito ao contrário do que alguns poderiam imaginar, a nova constituição ficou altamente democrática. Nela estão previstos referendos populares periódicos a respeito da permanência ou não do presidente da república no poder. Vários avanços sociais são contemplados, como por exemplo o estabelecimento dos círculos bolivarianos, presentes nos lugares pobres de todo o país. Nada disso é tratado pela grande mídia.

Outro fato muito comentado, porém pessimamente explicado foi a não renovação, por parte do governo Chávez, da concessão pública para a rede de televisão RCTV. Primeiro ponto: a RCTV esteve diretamente ligada à tentativa de golpe de Estado que Hugo Chávez sofreu em 2002 (vejam o documentário irlandês A revolução não será televisionada). Segundo ponto: a RCTV tinha dívidas trabalhistas e fiscais pendentes. Terceiro ponto: a não concessão pública é uma prerrogativa dos chefes do poder executivo em praticamente todas as democracias ocidentais. Não são poucos os exemplos de chefes de países europeus que optaram por não renovar a concessão para essa ou aquela rede de comunicações. Omitir isso do público é uma tremenda má fé, por parte da grande imprensa brasileira.

Quanto à liberdade de imprensa, é uma piada de mau gosto dizer que ela não existe na Venezuela. A direita venezuelana conta com inúmeras TVs, rádios e jornais que fazem oposição ferrenha ao governo Chávez e continuam existindo normalmente. Hugo Chávez, inclusive, é freqüentemente desrespeitado por esses grupos, que associam sua figura à de um macaco e outras coisas mais. No caso da tentativa de reforma constitucional, no final de 2007, a imprensa anti-chavista teve total espaço nos meios de comunicação para fazer sua campanha contra a reforma. Ora, se isso não é liberdade de imprensa eu não sei mais de nada.

Por falar na reforma, Chávez poderia ter muito bem tê-la aprovada no Congresso Nacional, já que tem maioria parlamentar. Mas não, preferiu submetê-la à apreciação popular. O povo venezuelano discutiu amplamente seus pontos (não conheço países totalitários em que isso tenha sido possível) e optou por não aprová-la. Hugo Chávez aceitou o resultado e disse que continuará na luta (democrática) por sua aprovação.

E é por tudo isso que digo a todos que Soy chavista e estoy con Chávez hasta 2026!

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Aberto da Austrália






O Aberto da Austrália, edição 2008, trouxe importantes novidades para os fãs de tênis. Primeiramente, uma grande revelação. Trata-se do francês Jo-Wilfried Tsonga, 22 anos, novo candidato a fenômeno do tênis mundial. Tsonga - que já fora destaque em sua época de juvenil - conviveu com uma série de lesões em 2005 e 2006, não obtendo, portanto, resultados expressivos. Em 2007 teve um ano razoável e terminou o ano entre os quarenta melhores do mundo. E foi nessa posição que Tsonga partiu para a disputa do Aberto da Austrália.

No torneio, o francês começou a chamar mais a atenção do público nas quartas-de-final, quando despachou, inapelavelmente, o respeitado tenista russo Mikhail Youzhny, por 3 sets a 0. Porém, assombrou de fato o mundo do tênis quando, na semifinal, nocauteou o poderoso espanhol Rafael Nadal, também por 3 sets a 0.

Vale destacar ainda, que Tsonga é um típico personagem dessa França dos tempos de Sarkozy, já que é filho de pai congolês e mãe francesa. Ou seja, é um francês negro e filho de imigrante, levando a bandeira da França pelo mundo do tênis. Cabe, portanto, à Sarkozy e à direita francesa olhar com mais cuidado e atenção para seus imigrantes, procurando incluí-los e não simplesmente perseguí-los e enxotá-los.

Voltando ao Aberto da Austrália, uma outra boa notícia para o tênis é a confirmação do sérvio Nowak Djokovic, 20 anos, como um dos grandes do esporte. Djokovic, que já fora muito bem em 2007 (terminando em terceiro no ranking da ATP), começa 2008 melhor ainda. O sérvio chega a final contra Tsonga sem ter perdido um set sequer. E mais impressionante do que isso, é que na semifinal ele bateu, em 3 sets, ninguém mais, ninguém menos do que o suiço Roger Federer.

Portanto, me parece que o circuito passará a contar, a partir de agora, com quatro tenistas fenomenais: Federer (possivelmente o melhor do esporte em todos os tempos), Nadal (o melhor tenista espanhol de todos tempos, o que não é pouco), Djokovic e Tsonga. E mais interessante do que isso, parece que finalmente o reinado de Federer aparenta estar ameaçado, e principalmente por Djokovic e Tsonga, já que Nadal só costuma bater o suiço nos pisos de saibro. É conferir.

Entre as mulheres não houve grandes novidades. Talvez a vitória da musa russa Maria Sharapova contra a número 1 do mundo, a belga Justine Henin. No entanto, o tênis feminino vive hoje um momento de muito equilíbrio entre as dez melhores do mundo e essa vitória acaba não sendo uma grande surpresa.

Em uma das semifinais, houve um jogaço entre a lindíssima eslovaca Daniela Hantuchova, contra a não menos bela Ana Ivanovic, da Sérvia. Além da boa qualidade da partida, chamou a atenção nesse jogo os intermináveis pedidos de desafios (uso do recurso tecnológico em caso de dúvida dos juízes) por parte das duas tenistas. E, na minha opinião, o jogo acabou sendo decidido dessa maneira. Em um lance capital a sérvia parou o jogo, pediu o desafio, comprovou-se que ela não tinha razão e mesmo assim a juíza mandou voltar o ponto, irritando profundamente a eslovaca, que se desconcentrou e errou uma bola fácil em seguida, tendo seu saque quebrado. Há que se rever o uso das teconologias no esporte.

E, finalmente, para os anti-estadunidenses de plantão, o tênis atual apresenta um dado surpreendente. É a primeira vez em décadas, que os EUA não contam com nenhum homem e nenhuma mulher entre os cinco melhores do mundo. Sinal dos tempos?