terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Pra não dizer que não falei das flores




No último dia 13, completaram-se 40 anos da decretação do Ato Institucional n° 5, para muitos o ato mais autoritário da história política brasileira. O decretum terrible, nas palavras do historiador Carlos Fico. Para Elio Gaspari, o ato iniciou uma nova fase dentro da ditadura militar brasileira, a Ditadura Escancarada. Em suma, decretou-se o golpe dentro do golpe.

Com efeito, o AI-5 foi gestado pelo menos duas décadas antes. Os contatos das forças armadas brasileiras com as estadunidenses durante a Segunda Guerra Mundial nutriu uma grande admiração daquelas em relação a estas. Dessa forma, já no imediato pós-guerra, em 1949, foi criada no Brasil a Escola Superior de Guerra (ESG). Coube a ESG a formulação da chamada Doutrina de Segurança Nacional e Desenvolvimento. Essa doutrina esmiuçou no Brasil vários elementos típicos do período da Guerra Fria. Termos como "inimigo interno", "defesa nacional", "guerra total", "império soviético", "contra-revolução" deram o tom das elaborações da ESG.

Mas o que isso tem a ver com o AI-5? Ora, o AI-5 abarcou, aprofundou e decretou todos esses elementos trabalhados pela ESG. O decretum terrible visou um controle quadripartite da sociedade brasileira, a saber: controle político, econômico, psicossocial e militar. Tudo isso refere-se frontalmente à Doutrina de Segurança Nacional e Desenvolvimento.

Viajemos então ao ano de 1968. Os militares da chamada linha dura (que haviam chegado ao poder com Costa e Silva em 1967) precisavam de um mote para colocar integralmente em prática os pressupostos da referida doutrina e, consequentemente, fechar ainda mais o regime. De fato, 1968 foi um ano bastante turbulento e, portanto, pretextos não faltaram para o golpe dentro do golpe. Inclusive, há documentos que atestam que o AI-5 já estava pronto em julho de 1968. Mas a linha dura esperava o momento certo. E ele começou a ganhar corpo em setembro. Poucos antes das comemorações de 7 de setembro, o deputado Márcio Moreira Alves (MDB-GB) fez um discurso inflamado e provocativo na tribuna da Câmara dos Deputados. Nele, Moreira Alves insuflou a população brasileira a boicotar os desfiles de 7 de setembro. E ainda propôs às jovens brasileiras que não se envolvessem com os jovens militares, os cadetes. O interessante é que o discurso não teve efetivamente maiores pretensões, tanto é que os jornais do dia seguinte não deram nenhuma repercussão ao caso. Não obstante, poderia ser exatamente o pretexto que os militares precisavam.

Sendo assim, a cúpula do governo Costa e Silva pediu à Câmara dos Deputados uma licença para que Márcio Moreira Alves pudesse ser processado. Após os trâmites regimentais da Câmara, enfim no dia 12 de dezembro foi feita a votação acerca da licença. A maioria dos deputados foi favorável à continuidade incólume do mandato de Moreira Alves. O detalhe é que o regime tinha confortável maioria nas duas casas, logo, muitos deputados arenistas votaram contra o governo.

Indignado com a decisão, o presidente Costa e Silva convocou uma reunião do Conselho de Segurança Nacional (cúpula militar e cúpula do governo). Era a "Missa Negra" ou a "terrível noite que durou dez anos". Palco: Palácio Laranjeiras. Atores: presidente da república, vice-presidente da república, principais ministros e principais líderes militares. Saldo da reunião: decretação do Ato Institucional n° 5. Tempo de validade do ato: indeterminado.

O Ato Institucional n° 5 foi simplesmente a consagração do "anti-direito". Com ele o presidente da república podia dissolver o Congresso Nacional, qualquer Assembléia Legislativa ou qualquer Câmara Municipal por tempo indeterminado. Podia cassar direitos políticos, tendo o cidadão mandato ou não. Podia demitir ministros do Supremo Tribunal Federal. Podia demitir qualquer servidor público (civil ou militar), sem qualquer processo, sob a simples alegação "a bem do serviço público". Podia fixar residência para qualquer cidadão, tipo: "você só pode morar ali". Podia vetar a locomoção de qualquer cidadão, tipo: "você só viaja dentro do país ou para o exterior com a autorização do governo". Podia legislar por decreto-lei.

Além disso tudo, o decretum terrible também proibiu qualquer reunião de cunho político, recrudesceu a censura e estabeleceu a censura prévia. As arbitrariedades não paravam por aí. O AI-5 ainda cassou o habeas corpus em casos de crime político. Em outras palavras, militantes políticos enquadrados na Lei de Segurança Nacional não podiam responder o processo em liberdade. Aliás, os primeiros 15 dias os presos passavam incomunicáveis. Elementar: eram nesses dias que as torturas corriam soltas.

No final de 1978 o AI-5 foi revogado. Felizmente, o Brasil virou essa página infeliz de nossa história, como diria Chico Buarque. Mas é imperativo visitarmos todas as páginas do livro chamado Brasil, inclusive as páginas infelizes. E por essas e outras é que temos que concordar com o ex-premier britânico Winston Churchill: "a democracia é o pior dos regimes, com exceção de todos os demais"!

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Da Constituição Cidadã


No último mês de outubro, mais precisamente no dia 5, a Constituição de 1988 completou 20 anos de sua promulgação. Há o que comemorar, afinal, nunca antes na história desse país (como diria o presidente Lula) o país viveu 20 anos ininterruptos de efetiva democracia. E este fato, sem dúvidas, tem muito a ver com a chamada Constituição Cidadã.

A carta de 1988, depois de 21 amargos anos de ditadura, garantiu - com todas as letras - liberdades individuais e coletivas e a efetividade da democracia brasileira. Aliás, a Constituição de 1988 - ao contrário de constituições anteriores, no Brasil e no mundo - apresenta os direitos e garantias fundamentais antes da organização do Estado e dos poderes. Isto tem um peso simbólico muito significativo. No fundo, o ser humano teve prevalência sobre o Estado.

Também são marcantes, na Constituição de 1988, os primeiros quatro artigos: referentes aos princípios fundamentais. Nesses artigos o Estado Brasileiro se compromete com a cidadania; com a dignidade da pessoa humana; com a construção de uma sociedade livre, justa e solidária; com o desenvolvimento nacional; com a erradicação da pobreza; com a redução das desigualdades sociais e regionais; e com a promoção do bem de todos. Percebe-se, portanto, além de boas doses de humanismo, uma quantidade interessante de desenvolvimentismo, estatismo e nacionalismo. Curiosamente, uma antítese ao neoliberalismo, que se iniciaria poucos anos depois no Brasil.

Mas como essa faceta progressista da Constituição se deu e se explica? Vamos lá. Primeiramente, houve, por parte dos constituintes, um forte olhar ao passado. A ditadura massacrara direitos e liberdades e adotou posturas antinacionalistas e "entreguistas", aliás, um jargão muito comum à época. Nesse sentido, grande parte dos constituintes fizeram questão de, expressamente, realçar o humanismo e o nacionalismo. Inclusive, muitos (geralmente, direitistas), hoje em dia, criticam a Constituição de 1988, dizendo que os constituintes olharam muito para o passado e pouco para o futuro.

Em segundo lugar, houve um desejo muito forte do povo brasileiro de que todos os direitos... tudo o que fosse possível fosse contemplado pela constituição. As pressões populares, durante a Assembléia Nacional Constituinte, eram para que as garantias fossem para aquele momento, para já. A preocupação tinha razão de ser, pois sempre foi muito comum que dispositivos constitucionais a serem apreciados por lei complementar ou lei ordinária, não fossem nunca regulamentados.

A terceira razão se relaciona diretamente com a própria história da Assembléia Nacional Constituinte. Sua instalação se deu no início de 1987, já que os constituintes foram escolhidos nas eleições de 1986. Durante praticamente todo o ano de 1987 (até outubro, aproximadamente), as esquerdas tiveram mais voz na constituinte. A presença do MST, da CUT e de outros movimentos sociais no Congresso Nacional foi marcante nesse período. Outro dado interessante de 1987, é que, nesse ano, a constituição começou a assumir uma orientação parlamentarista. Daí a inclusão da medida provisória no texto constitucional. A MP é um dispositivo típico do sistema parlamentarista, a ser usado pelo primeiro-ministro em temas de relevância e urgência. Alguns setores da sociedade queriam dar o máximo de poder possível ao parlamento, nesse sentido eram simpáticos ao parlamentarismo.

Contudo, no final de 1987 a direita se organizou e reagiu. Surgiu o Centrão, uma aglutinação suprapartidária conservadora, ligada ao governo Sarney. Seus membros pertenciam, sobretudo, ao PFL (hoje, DEM), ao PDS (hoje, PP), ao PTB e a setores mais à direita do PMDB. Eles ecoavam os anseios da FEBRABAN, da UDR, da TFP... Portanto, de "Centrão" não tinha nada, era "Direitão" mesmo. Mas é assim, no Brasil ninguém assume ser de direita. Ou se diz de centro ou fala que a dicotomia esquerda/direita é algo já superado. Enfim... De todo modo, o Centrão a partir de sua criação passou a prevalecer na constituinte. Dessa maneira, o mandato de Sarney permaneceu sendo de 5 anos e avanços sociais foram freados, notadamente, a reforma agrária. Quanto ao sistema de governo, no final das contas, com a participação decisiva do Centrão, a vitória foi do presidencialismo. Todavia, a medida provisória foi mantida, o que para muitos, torna o sistema brasileiro uma mistura entre parlamentarismo e presidencialismo, uma vez que o presidente da república é capaz de legislar. Já em 1993, o povo brasileiro, em plebiscito, optou pela manutenção do sistema presidencialista.

De uma maneira geral, gosto da Constituição de 1988. Ela á uma carta avançada e progressista em muitos de seus pontos. Não chega a ser um documento de esquerda, apesar de seu viés humanista e estatista. Apesar de o texto por diversas vezes mencionar a igualdade e a justiça social como compromisso do Estado, não impõe, efetivamente, maiores obrigações a este. Além disso, mantiveram-se intactas todas as bases do capitalismo brasileiro. De todo modo, a constituição salientou fortemente as garantias individuais e coletivas e protegeu a democracia brasileira e suas instituições. Nesse caso, ela merece sim o epíteto: Constituição Cidadã!

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

E Obama venceu...


O democrata Barack Obama é o novo presidente dos EUA. Depois de oito terríveis anos de governo Bush, eis que a maioria dos estadunidenses e grande parte mundo respiram mais aliviados. O "dream" de Martin Luther King Jr. se concretiza e completa seu ciclo. Um representante negro dos EUA, enfim, atinge o ápice dos direitos civis e políticos, pelos quais tanto lutou Luther King. Sim, a eleição de Obama é um acontecimento histórico e emblemático, pois, simbolicamente, dentro da história norte-americana, a página do racismo foi virada.

A eleição presidencial de 2008 foi uma das poucas da história estadunidense a não deixar margem para dúvidas. Barack Obama teve mais votos populares (aproximadamente 53% dos votos, contra 47% de McCain); obteve vitória em pelo menos 28 dos 51 estados norte-americanos; entre os sete maiores e mais importantes estados, a saber: Califórnia, Texas, estado de Nova Iorque, Flórida, Illinois, Pensilvânia e Ohio, Obama só não venceu no Texas, ah o Texas... ; e conquistou pelo menos 338 delegados no colégio eleitoral, sendo que eram necessários 270 dos 538 delegados. Por tudo isso, Obama, o 44° presidente dos EUA, chega bastante legitimado ao poder.

Gostei muito da vitória de Obama. O novo presidente tem uma belíssima biografia e idéias interessantes e progressistas. Por outro lado, vem respaldado por boa parte dos setores econômicos dominantes dos EUA, prova disso é que arrecadou mais de 750 milhões de dólares durante sua campanha. De todo modo, Obama se posicionou desde sempre contra a Guerra do Iraque, participou ativamente de vários projetos sociais em Chicago e teve uma atuação muito respeitável no senado dos EUA. Quais serão suas práticas enquanto presidente... a conferir. Torço muito para que ele mantenha a coerência.

O presidente Lula gostou da eleição de Barack Obama. A presidenta Cristina Kirchner e o primeiro-ministro britânico, Gordon Browm, também. Silvio Berlusconi não gostou muito, Álvaro Uribe nem um pouco. Nicolas Sarkozy não sabe bem se gostou ou não. Hugo Chávez e Evo Morales acho que, no fundo, gostaram... eles voltarão a dialogar com os EUA. A imprensa cubana olhou com reservas, mas sem dúvidas preferia Obama à McCain. O governo cubano não se posicionou.

Assim termina mais uma eleição presidencial nos EUA. Sufrágio indireto é seu modelo; bipartidarismo engessado, sua realidade; ausência de uma justiça eleitoral federal, algo um tanto esquisito; pleito em uma terça-feira, algo bizarro; ausência de horário eleitoral gratuito no rádio e na TV... não me parece algo tão democrático, pois favorece amplamente o poder econômico. Mas é assim, nosotros brasileños só nos damos o direito de meter o bedelho nas democracias venezuelana, boliviana e equatoriana. Dessa maneira, a democracia estadunidense parece "perfeita" e inquestionável. No que se refere a ela, damos uma lição de respeito à autodeterminação dos povos!

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Eleições 2008: um breve balanço




Realizaram-se, no último domingo (05/10), eleições municipais em todo o Brasil, à exceção de Fernando de Noronha e do Distrito Federal. Delas se puderam extrair algumas novidades. Mas houve também a ratificação de alguns aspectos importantes nas urnas.

O principal deles é a confirmação insofismável de que dado mandatário não transfere votos, facilmente, a outra pessoa. Isso se revelou muito claramente na eleição para a prefeitura de Belo Horizonte. Personagens centrais: o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, o atual prefeito de BH, Fernando Pimentel e o candiadato à prefeitura, Márcio Lacerda. Aécio (PSDB), nas palavras de Juca Kfouri, um misto de socialite e yuppie, e Pimentel (PT) se uniram e juntos resolveram lançar e apoiar a candidatura do magnata Márcio Lacerda (PSB). Disso, surgiu uma mais do que improvável aliança entre PT e PSDB, já que ambos protagonizam a maior rivalidade partidária da história recente da política no Brasil. Mas até aí nada de mais, alianças casuístas não são nenhuma novidade na política brasileira.

O que de fato surpreendeu foi o equilíbrio entre Lacerda e o candidato Leonardo Quintão (PMDB) no primeiro turno. Os dois terminaram empatados tecnicamente e disputarão a prefeitura no segundo turno. Ora, houve quem dissesse que Aécio e Pimentel, dois dos grandes líderes da política de BH e de Minas, juntos conseguiriam eleger até um poste. O povo de Belo Horizonte mostrou que não é bem assim e o páreo está completamente indefinido. Como diria Mané Garrincha: "só faltou combinar com os russos"!

Há outros exemplos parecidos na história política brasileira. Nas eleições presidenciais de 1960, Juscelino Kubitschek, popularíssimo àquela altura, não conseguiu eleger seu sucessor, o marechal Henrique Teixeira Lott. Aqui no DF, em 1994, o à época todo-poderoso governador Joaquim Roriz não elegeu seu afilhado político, Valmir Campelo. Nessas ocasiões, Jânio Quadros e Cristovam Buarque, respectivamente, sagraram-se vencedores.

Outros municípios: na cidade de São Paulo, vale mencionar as derrotas acachapantes do malufismo e da opus dei. Paulo Maluf (PP) e Geraldo Alckmin (PSDB) tiveram votações bem abaixo de suas expectativas. O segundo turno terá de um lado o atual prefeito Gilberto Kassab (DEM), apoiado pelo governador do estado de São Paulo, José Serra (PSDB). Do outro, a ex-prefeita Marta Suplicy (PT), apoiada pelo presidente Lula. Favoritismo para Kassab, uma vez que receberá o apoio de Alckmin, o terceiro colocado. Vale lembrar também, que Lula, embora tenha vencido com certa folga as eleições presidenciais de 2006, perdeu na capital paulista, nos dois turnos, exatamente para Geraldo Alckmin.

No Rio, vale destacar a surpreendente escalada de Fernando Gabeira (PV), que irá ao segundo turno. Ele enfrentará Eduardo Paes (PMDB), candidato que terá o apoio expresso do governador Sérgio Cabral e velado do presidente Lula. Grandes derrotados: o senador Marcelo Crivella (PRB) e sua Igreja Universal do Reino de Deus. Além do atual prefeito, César Maia (DEM), que viu sua candidata, Solange Amaral, ter um desempenho pífio.

Em Salvador, a exemplo das eleições de 2006, mais uma derrota do carlismo. O outrora favorito, ACM Neto (DEM), sequer chegou ao segundo turno. Sendo assim, a disputa será entre João Henrique Carneiro (PMDB), apoiado pelo ministro da integração nacional, Gedel Vieira Lima, versus Walter Pinheiro (PT), que terá o apoio do governador Jaques Wagner, seu correligionário. O presidente Lula, provavelmente, ficará neutro. Talvez apoie veladamente o candidato do PT.

Em Porto Alegre, a disputa em segundo turno será entre o atual prefeito José Fogaça (PMDB) e Maria do Rosário (PT). Apesar da candidata petista ter ficado em segundo lugar no primeiro turno, ela terá grandes chances de vitória no segundo. Isso porque a terceira colocada, Manuela d'Ávila (PCdoB), e a quarta, Luciana Genro (PSOL), tiveram votação expressiva e pertencem a partidos de esquerda, tal qual Maria do Rosário. Portanto, o voto de ambas deverão em maioria migrar para a candidata do PT.

Então é isso. Como sempre gosto de me posicionar sobre o que escrevo. Estou com Marta, em São Paulo; Gabeira, no Rio; Walter Pinheiro, em Salvador; e Maria do Rosário, em Porto Alegre. Em Belo Horizonte, não tenho preferência por nenhum dos dois candidatos. Ah, já ia me esquecendo... entre as sempre presentes patacoadas e fanfarronices eleitorais, destaca-se a eleição de Túlio Maravilha. O centroavante do Vila Nova foi o terceiro vereador mais votado de Goiânia e entre 2009 e 2013 "representará" seus habitantes na câmara municipal. Está virando moda, em 2006, o ex-centroavante do Paysandu, Robson, o Robgol, foi eleito deputado estadual no Pará. Tragicômico!

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Complexo Olímpico de Vira-Latas?






Encerraram-se no último domingo os Jogos Olímpicos de Pequim 2008. O Brasil terminou os jogos na 23ª colocação, com 3 medalhas de ouro, 4 de prata e 8 de bronze, somando 15 medalhas no total. O presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Carlos Arthur Nuzman, considerou como bom o desempenho brasileiro. O presidente Lula considerou razoável. A imprensa se dividiu, houve quem achou boa a participação do Brasil, por outro lado teve quem achou medíocre. Na minha opinião o desempenho foi razoável, mas poderia ter sido bem melhor. A gente bronzeada poderia ter mostrado mais o seu valor. Será que o que atrapalha o Brasil seria uma espécie de complexo olímpico de vira-latas?

Vamos à história recente da participação olímpica brasileira. Os jogos de Atlanta 1996 marcaram o início de um mínimo projeto olímpico brasileiro. Nesta edição, o Brasil terminou os jogos em 25° lugar (3 ouros, 3 pratas e 9 bronzes, 15 no total). Quatro anos mais tarde, Sydney 2000, o Brasil decepcionou e fechou os jogos na péssima 53ª posição (nenhum ouro, 6 pratas e 6 bronzes, somando 12 medalhas no total). Atenas 2004 marcou o melhor desempenho brasileiro, já que o Brasil ficou na 16ª colocação (5 ouros, 2 pratas e 3 bronzes, 10 medalhas no total). Antes de Atlanta 1996 mal havia investimento e planejamento no esporte brasileiro. Os resultados até Barcelona 1992 foram pífios, sobretudo no tocante ao total de medalhas conquistadas. Em suma, somente verdadeiros abnegados traziam medalhas para o Brasil até 1996.

Os resultados melhoraram a partir de 1996 graças a dois fatores primordiais. Primeiro: os investimentos estatais aumentaram e aumentam significativamente durante os governos Fernando Henrique e Lula. Segundo: a boa gestão de Carlos Arthur Nuzman à frente do COB. O dirigente é tido como o transformador do vôlei brasileiro, uma vez que presidiu a Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) entre 1975 e 1997. Com o ótimo desempenho do voleibol brasileiro a partir dos anos 80/90, Nuzman recebeu a missão de encabeçar o projeto olímpico do Brasil. Em 1990, ele se tornou vice-presidente do COB e em 1995 foi nomeado o presidente da instituição.

Entre outros fatores que tem melhorado o desempenho olímpico brasileiro, destaca-se a Lei Agnelo/Piva. Esta lei, sancionada em 2001, estabelece o montante mínimo dos recursos provenientes das loterias federais a ser repassado ao COB. Em 2004, surgiu a lei que instituiu a Bolsa-Atleta. Essas bolsas são fornecidas pelo Ministério do Esporte e seus valores vão de R$ 300 à R$ 2.500 para cada atleta, conforme sua categoria (estudantil, nacional, internacional e olímpica). Por fim, e à título de curiosidade, vale mencionar as principais empresas que investem no esporte olímpico brasileiro. Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Petrobrás, Correios, Infraero e Eletrobrás estão entre as empresas estatais. Olympikus, Sadia, Samsung, Bradesco, Grupo Pão de Açúcar, Sol e Oi estão entre as empresas privadas. Estas investem no esporte, seduzidas por incentivos fiscais, formalizados com a Lei de Incentivo ao Esporte, sancionada em 2006.

Isto posto, voltemos ao desempenho brasileiro em Pequim. Ele foi razoável porque o Brasil efetivamente se consolidou no grupo das potências olímpicas médias. Porém, tendo em vista o expressivo aumento dos investimentos em esporte nos últimos anos (estima-se que 1,2 bilhões de reais foram gastos em esporte, pelos cofres públicos, nos últimos quatro anos), o desempenho não foi satisfatório. Quanto a isso, sem dúvidas, há que se ter mais transparência na questão da aplicação dos recursos públicos direcionados ao esporte. Mas, não é exatamente isso que quero discutir neste texto. Outrossim, quero avaliar a participação brasileira à luz do tal complexo de vira-latas. Esta expressão foi cunhada pelo saudoso dramaturgo Nelson Rodrigues e referia-se à seleção brasileira de futebol pré-1958. Dizia ele que antes da Copa do Mundo de 1958 os brasileiros já eram os melhores do mundo no futebol. Entretanto, segundo Nelson, o que atrapalhava a seleção brasileira era um detestável complexo de vira-latas ante as principais potências futebolísticas do mundo. Assim, com o título de 1958, o Brasil teria se livrado de vez desse complexo. A partir dali o Brasil sempre figuraria entre os melhores. Isto foi comprovado com os outros quatro títulos mundiais que vieram posteriormente. Mas e nos Jogos Olímpicos? Como puderam tantos campões mundiais do Brasil terem fracassado nos jogos? Seria um complexo olímpico de vira-latas?

Penso que, em parte, sim. Antes dos jogos de Pequim, eu cravei - num cálculo otimista, mas embasado tecnicamente - em dez medalhas de ouro para o Brasil. Apostei no ouro (que é que vale no quadro de medalhas) em: Thiago Camilo (atual campeão mundial de judô entre os meio-médios); João Derly (atual bi-campeão mundial de judô entre os meio-leves); time de vôlei masculino (ganhou tudo nos últimos sete anos); time de vôlei feminino (atual campeão do Grand Prix e atual vice-campeão mundial); seleção feminina de futebol (atual vice-mundial e vice-olímpica); Robert Scheidt (campeão mundial em 2007 pela Classe Star e que já havia ganhado tudo pela Classe Laser); Rodrigo Pessoa (atual campeão olímpico no hipismo); Ricardo e Emanuel (atuais campeões olímpicos no vôlei de praia); Diego Hypólito (atual campeão mundial de ginástica artística no solo); e Jade Barbosa (com 16 anos foi terceira colocada no último mundial de ginástica artística e é tida como uma atleta em ascensão). Além desses, por seus bons resultados nas últimas competições mundiais, apostei em outros potenciais medalhistas (podendo ser ouro, prata ou bronze), foram eles: Maurren Maggi, Fabiana Murer e Jadel Gregório (Atletismo); César Cielo, Thiago Pereira e Kaio Márcio (Natação); Leandro Guilheiro e Luciano Corrêa (Judô); Natália Falavigna (Taekwondo); futebol masculino; e vôlei de praia feminino. Acertei na mosca somente um ouro e cinco medalhas. De acordo com meu prognóstico a frustração foi grande, uma vez que ela é sempre proporcional à expectativa criada.

Por outro lado, da minha lista de "medalháveis", somente João Derly não ficou entre os primeiros. E dos dez ouros que apontei, seis trouxeram alguma medalha. Sendo assim, percebe-se que a despeito da falta de transparência da utilização das verbas públicas no esporte, o Brasil hoje em dia consegue ser competitivo em várias modalidades olímpicas. Contudo, é aí que vem o complexo de vira-latas. A expressão criada por Nelson Rodrigues se refere a alguém que é superior, mas não consegue concretizar sua superioridade. Vários atletas de outros países, nas mais diversas modalidades, lidam muito melhor com o favoritismo do que os brasileiros. Até mesmo no futebol, esporte em que o Brasil se transformou no país mais temido e respeitado do mundo, os brasileiros ainda têm uma seríssima dificuldade em lidar com o favoritismo. Das cinco copas que o Brasil ganhou, em quatro ele não chegou como favorito. A exceção foi 1962. Todavia, quando os jogadores chegam criticados e sob suspeita, geralmente, eles conseguem responder bem. Talvez, só no vôlei masculino (vamos ver a partir de agora no feminino) o Brasil, hoje em dia, lida bem com o favorismo.

Não há uma explicação exata para isso. Talvez um caminho seja a psicologia, mais precisamente a psicologia do esporte. O técnico da seleção feminina de vôlei, José Roberto Guimarães, exigiu do COB um psicólogo para trabalhar a parte emocional das jogadoras. Pelo visto a iniciativa deu certo. Outro fator, talvez, seja a falta de gana necessária para ser ouro e não somente medalhista. Simbolicamente, a imprensa também tem culpa nisso com o seu derrotista "o Brasil já garantiu ao menos a prata", quando o país chega a uma final olímpica. Ora, a prata não é nada no quadro de medalhas, já que um ouro vale mais do que cem medalhas de prata. O atleta, caso estivesse entre os favoritos, tem que sair insatisfeito quando conquistar apenas a prata ou bronze. O conformismo é o pior inimigo de um verdadadeiro campeão, vide o piloto Rubens Barrichello. É isso, o atleta brasileiro tem que ter mais vontade de ser ouro. Sabendo que no esporte tudo pode acontecer, mas com a cabeça voltada para o ouro. Chineses, estadunidenses e russos pensam assim. Com isso, China, EUA e Rússia sabem jogar muito bem os jogos olímpicos, leia-se quadro de medalhas.

Dois exemplos emblemáticos da fraqueza psicológica brasileira se deram com Jade Barbosa e Fabiana Murer. Jade chegou à Pequim com um impressionante despreparo emocional. Ela simplesmente chorou de desespero ao ser abordada por um batalhão de repórteres em seu embarque na China. Ora, assédio da imprensa é a coisa mais natural na vida de um grande atleta, caso de Jade Barbosa. Quem viu a cena percebeu nitidamente que a ginasta ainda não está preparada psicologicamente para ser uma grande campeã. Tomara que isso mude, já que Jade tem muito talento. Já o caso da Fabiana Murer, atleta do salto com vara, revelou uma falta de serenidade diante das adversidades. Obviamente, foi um absurdo, uma gafe monumental da organização dos jogos, o sumiço de uma de suas varas. Agora, seu desespero, diante da adversidade, foi de tal ordem que ela acabou se auto-derrotando. Quem assistiu às imagens, percebeu que ela não teria condições nenhumas de realizar um bom salto. Dito e feito. A fenomenal Yelena Isinbayeva, sua companheira de treinamentos durante alguns meses, disse depois que poderia emprestar sua vara sem nenhum problema. Fabiana não pensou nisso e acabou obtendo um resultado frustrante. Seu desespero foi compreensível, mas poderia ter sido evitado.

Os aspectos psicológicos têm de ser melhor trabalhados nos atletas olímpicos brasileiros. E isso é bastante paupável. Se a preparação técnica, que é a mais difícil, já tiver sido feita feita, o preparo emocional se torna um simples, mas importante detalhe. Isso nos atletas de ponta, nos olímpicos. Porque na base há ainda muitíssima coisa a ser feita. O modo pelo qual o Estado brasileiro trata o esporte, enquanto fator de inclusão social e saúde pública, é vergonhoso. Números da Organização Mundial de Saúde (OMS) apontam que para cada dólar aplicado no esporte de base, economiza-se três dólares em saúde pública. O Brasil ainda não olhou seriamente para isso. Esporte, educação e saúde, enquanto políticas públicas, devem caminhar sempre de mãos atadas. Portanto, mais do que tornar o Brasil uma potência olímpica, os investimentos públicos em esporte têm a capacidade de educar, incluir e promover saúde pública. Massificar a prática do esporte só traz o bem para a população de um país. Mas os investimentos nos esportes de alto rendimento - com o conseqüente sucesso olímpico - também são importantes. Primeiro porque incentivam a prática do esporte dentro do país. Segundo porque, simbolicamente, o êxito olímpico traz uma certa auto-estima para o povo. Terceiro porque o mundo, certamente, lança bons olhos ao país.

Em resumo é isso. No Brasil, o esporte deve ser trabalhado, na base, como elemento de bem-estar social. Na outra ponta, nos esportes de alta performance, como fator de auto-estima, coesão entre os brasileiros e, claro, lançamento de oportunidades de trabalho. Esses investimentos ajudarão, inclusive, na superação do tal complexo de vira-latas. Não só nos esportes, mas também em outros aspectos. Educação, saúde e auto-estima são a base de um país bem-sucedido. Como diz o célebre provérbio latino: "mens sana in corpore sano"!

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Jogos Olímpicos: muitas histórias






Em 1896, o aristocrata francês Pierre de Coubertin fundou os Jogos Olímpicos da era moderna. Ele se inspirou nos Jogos Olímpicos da antigüidade, já que à época (final do século XIX) haviam sido feitas importantes escavações e descobertas no sítio arqueológico de Olímpia, cidade da Grécia Antiga. Coubertin resolveu que os jogos seriam realizados de quatro em quatro anos (Olimpíada), tal como na antigüidade. Sim, o que está acontecendo agora em Pequim são os Jogos Olímpicos. A próxima Olimpíada começará no dia 25 de agosto de 2008 (término dos jogos de Pequim) e terminará no dia 27 de julho de 2012 (início dos jogos de Londres). Vulgarmente, os Jogos Olímpicos e a Olímpíada são postos como sinônimos. Mas enfim...

Desde seu início, os Jogos Olímpicos serviram para mostrar a superioridade dos países mais ricos do mundo. Não à toa, Estados Unidos, Grã-Bretanha, Alemanha e França (as principais potências mundiais nas primeiras dédadas do século XX) foram os grandes destaques dos primeiros jogos.

Pouco a pouco, os Jogos Olímpicos foram adquirindo uma forte conotação ideológica. A supremacia no quadro de medalhas passou a simbolizar a superioridade de dada etnia ou o sucesso de determinado sistema sócio-econômico. O primeiro grande exemplo disso, sem dúvidas, foram os jogos de Berlim 1936, em plena Alemanha Nazista. Adolf Hitler, que freqüentou assiduamente as arenas onde se realizaram as competições, quis demonstrar a superioridade da raça ariana. Sua festa, em parte, foi estragada por Jesse Owens, um negro estadunidense que faturou quatro medalhas de ouro no atletismo, sendo considerado o grande nome dos jogos. De qualquer modo, a Alemanha venceu bem os jogos de 1936, conquistando 33 medalhas de ouro, nove a mais do que o segundo colocado, os Estados Unidos.

Com o advento da guerra fria surgiu uma nova grande disputa nos Jogos Olímpicos: o duelo entre os sistemas capitalista e socialista. Estados Unidos e União Soviética, Alemanha Ocidental e Alemanha Oriental... passaram a disputar medalha a medalha quem tinha o sistema sócio-econômico mais vitorioso e apropriado. O auge dessa disputa se deu na década de 1980 com os famosos boicotes olímpicos. Em 1980, o presidente estadunidense Jimmy Carter, em represália à invasão soviética ao Afeganistão, resolveu boicotar os jogos de Moscou daquele ano. Outros 68 países (incluindo Alemanha Ocidental, Canadá e Japão) seguiram os EUA e aderiram ao boicote. França e Grã-Bretanha apoiaram o boicote, mas facultaram a seus atletas a decisão de ir ou não aos jogos. Muitos optaram por não ir. Sendo assim, das potências ocidentais apenas a Itália levou força máxima para os jogos de Moscou. À título de curiosidade, Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai e Bolívia foram os países sul-americanos a aderirem ao boicote.

Nos Jogos Olímpicos seguintes, Los Angeles, o bloco socialista deu o troco. Sob a liderança da URSS, Cuba, Coréia do Norte, Angola, Vietnã, Alemanha Oriental e os outros países do leste europeu (à exceção de Romênia e Iugoslávia) boicotaram os jogos de 1984. Curiosamente, a Romênia, o único país representante da chamada cortina de ferro (expressão cunhada por Winston Churchill em 1946) teve uma grande participação nos jogos, tendo ficado em segundo lugar com 20 medalhas de ouro. Vale lembrar que a Iugoslávia não fazia parte da cortina de ferro. O país era socialista, mas tinha autonomia em relação à União Soviética. Isso porque o país conseguiu se libertar da ocupação nazi-fascista sem a ajuda do exército vermelho. Portanto, o regime iugoslavo, liderado por Josip Broz Tito, era socialista, porém não-alinhado à Moscou. Inclusive, Tito foi um dos principais líderes do Movimento Não-Alinhado, marco do movimento terceiro-mundista, cujo o início se deu na Conferência de Bandung, em 1955.

Para tentar reparar os rancores provenientes dos boicotes foram organizados em 1986 os Jogos da Amizade (Goodwill Games). Neles, EUA e URSS se enfrentaram em uma competição de grande porte pela primeira vez desde 1976. Durante a guerra fria só aconteceram duas edições dos Jogos da Amizade: 1986 em Moscou (URSS) e 1990 em Seattle (EUA). Com o fim da guerra fria, os jogos da amizade perderam sua importância e razão de ser.

Mas os boicotes capitalista e socialista não foram os únicos a marcarem a história dos Jogos Olímpicos. Os jogos de Los Angeles 1984 marcaram a primeira aparição olímpica da China. Os chineses boicotaram os jogos até 1984. Para esta edição, Taiwan (também chamado de Formosa ou de República da China) foi designado pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) como Taipé Chinês. A China não reconhece Taiwan como país independente, daí a reivindicação para a outra denominação. Atendido o pedido, a China passou a freqüentar com sucesso os Jogos Olímpicos.

Por fim, outro boicote digno de nota se deu em Montreal 1976. 28 países (sendo 26 africanos), liderados pelo Congo, boicotaram os jogos de 1976. Pouco antes dos jogos de Montreal, a Nova Zelândia havia mandado seu famoso time de rugby para uma excursão pela África do Sul (país muito apreciador do rugby). A África do Sul vivia o auge do regime do Apartheid e por esse motivo o país fora banido pelo COI e estava desligado de qualquer competição internacional. Devido à referida excursão, os países africanos pediram a retirada imediata da Nova Zelândia dos Jogos Olímpicos de 1976. O COI recusou o pedido e com isso 26 países africanos, Iraque e Guiana optaram por boicotar os jogos de Montreal.

É interessante mencionar outros fatos marcantes da história dos jogos. Por exemplo, a edição de 1972, em Munique, marcou a maior tragédia da história olímpica. Cinco membros do grupo palestino Setembro Negro invadiram a vila olímpica e mataram 11 atletas israelenses. O episódio ficou conhecido como Massacre de Munique. Os jogos de 1972 marcaram também a emergência de Cuba como potência olímpica. 13 anos após a Revolução Cubana, a ilha de Fidel despontava no cenário esportivo internacional. Como curiosidade vale destacar ainda que nos jogos de Sydney 2000 as duas Coréias desfilaram na cerimônia de abertura sob uma única bandeira. Foi uma tentativa de aproximação política por meio do esporte que ao que parece não deu muito certo.

Com o fim da guerra fria, os Jogos Olímpicos ficaram marcados pelo relativo predomínio dos EUA no quadro de medalhas. Aliás, cada vez mais os jogos refletem a pujança econômica dos países. As 11 maiores potências olímpicas das últimas edições foram e são: EUA, China, Rússia, Japão, Coréia do Sul, Austrália, Alemanha, França, Grã-Bretanha, Itália e Cuba (é raro aparecer um "intruso" entre esses 11, quando isso ocorre geralmente é um país do leste europeu ou um país-sede). Percebe-se, portanto, que Cuba é o único desses países que não é uma potência econômica. Uma exceção, pois a regra é uma relação direta entre o PIB e o sucesso olímpico. Uma outra mostra disso é que abaixo desse "G-11" vem um grupo de potências olímpicas médias, entre as quais figura o Brasil. Ora, essa relação de potências intermediárias não se difere muito do G-20 (grupo de países em desenvolvimento ou emergentes, que concentra suas atividades econômicas na agricultura).

Se existe a relação entre tamanho do PIB e sucesso olímpico, é óbvio que os países se dedicam cada vez mais a investir em esporte. Simbolicamente, se um país se mostra bem sucedido no esporte, significa que as coisas estão caminhando bem nele. Daí, ele, por exemplo, eventualmente, poderá captar investimentos externos por meio do espelho do esporte. É mais ou menos isso, o esporte seria um esboço da concreta situação sócio-econômica de dado país. E quem não quer ser bem visto? Por isso todos investem como podem em esporte.

Os Jogos também simulam mais ou menos bem a globalização. As técnicas dos diferentes esportes estão mais acessíveis e cada vez mais espalhadas pelo mundo. Hoje é possível que a seleção brasileira de ginástica artística tenha um ucraniano no comando. Além disso, vê-se, através dos Jogos Olímpicos, desigualdades e disparidades gigantescas, mas ao mesmo tempo enxerga-se uma paulatina multipolarização. Em outros termos, as medalhas, bem como o poder geopolítico, residem em um seleto grupo, porém não se concentram em um país só. Ora, o que significa esse estrondoso avanço da China no quadro de medalhas?...

É isso, por meio dos Jogos Olímpicos é possível simular a história como um todo. Seu início no fim do século XIX; suas únicas "não-edições"(1916, 1940 e 1944) revelando os efeitos das duas guerras mundiais; o nazismo; a guerra fria e suas repercussões; a Revolução Chinesa; a Revolução Cubana; o Apartheid; a questão árabe-israelense; a globalização e seus efeitos, ora positivos, ora perversos... Em suma, é muito interessante tudo isso!

terça-feira, 1 de julho de 2008

"Revolução dos Cravos" em São Januário





"Foi bonita a festa, pá. Fiquei contente. Ainda guardo renitente um velho cravo para mim." Esses versos de Chico Buarque se referem à Revolução dos Cravos, acontecimento histórico que no ano de 1974 marcou o fim do salazarismo em Portugal. Antônio Salazar, de 1933 a 1968, governou com mãos de ferro os destinos lusitanos. Em 1968, assumiu em seu lugar Marcelo Caetano. As diretrizes políticas de Caetano pouco se difereciaram em relação às de seu antecessor, uma vez que a ditadura e o neocolonialismo ultramarino continuaram em seu governo. Daí convencionalmente o fim do regime salazarista ser marcado somente em 1974. Dessa forma, foram 41 anos de Estado Novo, a ditadura moldada por Salazar em Portugal.

Coincidentemente, os mesmos 41 anos foram o tempo em que Eurico Ângelo de Oliveira Miranda esteve envolvido nos rumos do Club de Regatas Vasco da Gama. Em 2008, Eurico e seu grupo foram finalmente derrotados, tendo fim um nefasto regime ditatorial dentro do Vasco. Daí o dia 28 de junho de 2008 ter marcado a "Revolução dos Cravos" cruzmaltina.

Eurico Miranda é um filho de portugueses que se mudaram para o Brasil, na década de 30, fugindo exata e ironicamente do regime salazarista. Desde moço ele se interessou pelo Vasco da Gama e em 1967 conseguiu seu primeiro cargo administrativo no clube. A partir daí pouco a pouco foi construindo e aumentando seu prestígio dentro do Vasco. Tanto é verdade que, já em 1982, Eurico concorreu pela primeira vez à presidência do clube. Foi derrotado em 1982 e também em 1985 pelo mesmo homem, Antônio Soares Calçada. Este, ao perceber o expressivo e crescente prestígio de Eurico Miranda no clube, o convidou em 1986 para ser seu vice-presidente de futebol. Em outras palavras, Eurico passaria a ser o homem forte do futebol do Vasco.

A partir daí, Eurico Miranda foi se popularizando cada vez mais dentro do Vasco da Gama. Isso, em larga medida, porque o clube passou a viver um período de muitos títulos. Em 15 anos como vice-presidente de futebol, Eurico "deu" ao Vasco um título da Copa Libertadores da América (1998), três campeonatos brasileiros (1989, 1997 e 2000), uma Copa Mercosul (2000), um Torneio Rio-São Paulo (1999), seis campeonatos cariocas (1987, 1988, 1992, 1993, 1994, e 1998), além de outros títulos de menor relevo. Além disso, devido à sua personalidade forte, briguenta e explosiva, passou a peitar a tudo e a todos "em nome dos interesses do Vasco", como ele gostava de dizer. Prova disso é que ele comprou brigas até mesmo com grupos poderosos, como a Rede Globo e a CBF. Naturalmente, ele passou a ser considerado um grande líder dentro do clube.

Não obstante, ainda durante sua estada na vice-presidência do departamento de futebol do Vasco, foram aparecendo inúmeros indícios de que Eurico Miranda era altamente corrupto. Nos idos de 1999-2000-2001 foi feita uma devassa em sua vida. Primeiramente a imprensa, depois a CPI do futebol, em 2001, transformaram os indícios de corrupção em evidências. Verificou-se que a administração vascaína tinha uma série de irregularidades e que Eurico Miranda era um homem riquíssimo. Vale dizer que Eurico possui mansão em Angra dos Reis, iates, entre outras coisas, e só fuma charutos dos mais caros do mundo. Como ele é um advogado e fisioterapeuta que pouco exerceu essas duas profissões, constata-se que sua riqueza adveio ilicitamente do Club de Regatas Vasco da Gama. Mesmo assim, ele foi absolvido em seu processo de cassação na Câmara dos Deputados e, nesse momento, continuou seguindo sua vida normalmente no Vasco.

No final de 2000, Eurico Miranda foi eleito, finalmente, presidente do Club de Regatas Vasco da Gama. Algo mais do que esperado, visto que àquela altura o Vasco caminhava para seu quarto título brasileiro e para a conquista da Copa Mercosul, ou seja, tinha um grande time de futebol. Aliás, é típica da cultura brasileira a vista grossa à corrupção quando as coisas nos outros aspectos estejam indo e acontecendo "mais ou menos bem". Em outros termos: o "rouba, mas faz". Assim, Eurico tomou posse no início de 2001 e, curiosamente, seu primeiro ato como presidente foi o de colocar o logotipo do SBT na camisa do Vasco. Isso foi em janeiro de 2001, no jogo remarcado contra o São Caetano (já que parte do alambrado de São Januário havia caído e o jogo em questão foi suspenso), valendo o título do campeonato brasileiro de 2000. Não preciso nem falar que foi um ato de forte hostilidade à Rede Globo, que vinha engrossando o caldo anti-Eurico e foi obrigada a transmitir a final com o logo da concorrente em destaque na transmissão.

Já em 2001, o futebol do Vasco da Gama dava os primeiros sinais de decadência. Pouco a pouco seus principais jogadores foram saindo, muitos deles, inclusive, tendo colocado o clube na justiça em função de dívidas trabalhistas. O dinheiro do clube foi secando (os títulos idem) muito em função da péssima imagem que Eurico Miranda transmitia aos investidores. Além disso, a administração anterior (Calçada, presidente do clube até 2001, e Eurico, o todo-poderoso do futebol do clube) criou uma dívida astronômica no Vasco.

Assim, as críticas externas ao clube foram cada vez se acentundo mais. A novidade foi o começo de uma movimentação da oposição no clube. Entrou em cena aí o maior ídolo da história do Vasco, Roberto Dinamite. Ele, como não poderia deixar de ser, passou a tecer críticas em relação ao modelo Eurico Miranda de administrar. Além de problemas financeiros e contábeis, sua administração já era fortemente marcada pelo autoritarismo. Sócios ou conselheiros do clube que discordassem dos métodos de Eurico, passaram a simplesmente ser expulsos do clube por ele. Foi exatamente isso que aconteceu com Roberto Dinamite, no início de 2002. Dinamite estava com seu filho na tribuna de honra de São Januário, assistindo a um jogo do Vasco, quando de repente foi expulso do estádio e do clube. A partir daí, Roberto estava expressamente proibido de entrar no clube. Olhando retrospectivamente, este ocorrido marcou o começo do fim da "Era Eurico Miranda" no Vasco da Gama.

Roberto Dinamite começou a se articular com o Movimento Unido Vascaíno (MUV), um grupo de vascaínos ilustres, fundado sem muito destaque em 1997. E a partir de 2002, Roberto manifestou o desejo de concorrer à presidência do Vasco. As eleições seguintes ocorreriam em 2003. Assim sendo, Roberto foi para o pleito de 2003, mas foi derrotado por Eurico Miranda. Gravíssimas acusações de fraude foram feitas, mas nada que impedisse a nova posse de Eurico na presidência do clube.

O Vasco da Gama continuou sem grande destaque no cenário futebolístico até 2006 (o único título do clube, desde 2000, tinha sido o campeonato carioca de 2003), ano de novas eleições. Novamente, Eurico Miranda e Roberto Dinamite medindo forças. Este um candidato cada vez mais forte, aquele um sujeito cada vez mais desgastado e controverso. Mas Eurico detinha a máquina administrativa do clube. Sendo assim, ele novamente derrotou Roberto. Desta vez, não foram encontrados somente indícios, mas também provas contundentes de fraudes no pleito. Dessa forma, o grupo de Dinamite acionou a justiça.

Entre idas e vindas, encontros e desencontros, guerra de liminares e tudo o mais, finalmente, em junho de 2008 foram marcadas novas eleições no Vasco, já que Eurico Miranda vinha exercendo o poder interinamente desde novembro de 2006. Eurico ainda tentou melar a decisão judicial outras vezes e numa atitude de claro desespero decidiu boicotar o pleito. Ora, sempre quando alguém boicota uma eleição, o faz porque sabe que não tem a menor chance de vencê-la, tentando dessa forma - como última cartada - pelo menos desestabilizar e deslegitimar o processo. Nesses casos, quase sempre o tiro sai pela culatra e a derrota apenas se torna mais fragorosa e humilhante. Foi exatamente isso que aconteceu e Roberto venceu com enorme folga no voto dos associados. Faltava apenas sua chapa ser sufragada no conselho dos beneméritos do Vasco da Gama, visto que no clube as eleições são indiretas. Isso ocorreu no dia 28 de junho, novo dia histórico para a grande maioria dos vascaínos. Como diz o título deste texto, a "Revolução dos Cravos" em São Januário.

Saldo da gestão Eurico Miranda enquanto presidente do Club de Regatas Vasco da Gama (2001-2008). Títulos: um campeonato carioca (2003). Dívidas trabalhistas estipuladas: 50 milhões de reais. Dívida total estipulada: 300 milhões de reais. Processos trabalhistas contra o clube: 77. Prejuízo adicional: oito anos parado no tempo. Sem nenhuma dúvida, Eurico deixa para Roberto Dinamite uma verdadeira herança maldita.

E assim mais uma vez se moveu o trem da história. De agora em diante, Roberto Dinamite tem um duríssimo desafio pela frente. Administrar um clube com muitas dificuldades financeiras não será nada fácil. Ele e seu grupo vêm dizendo que têm muitos patrocinadores à vista. Assim espero, enquanto vascaíno que sou. De todo modo, Roberto só não tem direito a duas coisas no comando do clube: fazer uma gestão corrupta e ter uma postura antidemocrática. Tenho quase certeza de que não agirá dessa maneira. Portanto, decência e espírito democrático (coisas que estiveram longe de São Januário nos últimos anos) estão de volta. A esperança é que, além disso, Dinamite faça uma gestão suficientemente competente para devolver ao Vasco, no médio prazo, a condição de grande força do futebol brasileiro e internacional. Torço muito para isso.

Pois é. A história novamente fez mais uma das suas. Geralmente quando algo está caótico e em crise surge alguma coisa boa em seguida. Assim, novamente o Club de Regatas Vasco da Gama foi vanguarda. O clube tem uma história belíssima. Foi o primeiro a aceitar negros e operários em seus elencos e construiu São Januário com seus próprios esforços (sem ajuda estatal para nada, algo bastante incomum à época e hoje). Tudo porque os elitistas grandes clubes do Rio de Janeiro, do início do século XX, determinaram que o Vasco só poderia pertencer à liga de futebol do Estado se tivesse um estádio para jogar. A partir desses feitos o Vasco ganhou muita força e popularidade no Brasil, sendo um dos gigantes do esporte no país. A gestão Eurico Miranda manchou um pouco tudo isso e tornou o clube antipático para as demais torcidas e para potenciais novos torcedores. Portanto, Roberto Dinamite está sendo o resgate do Vasco enquanto clube de vanguarda, afinal, é o primeiro ídolo de um clube brasileiro a se tornar seu presidente. Então, por tudo isso, vascaínos de todo o Brasil estão bradando nesta semana: "Ao Vasco nada? Tudo!!! Então como é que é? Casaca! Casaca! Casaca, zaca, zaca! A turma é boa! É mesmo da fuzarca! Vasco! Vasco! Vasco!"