terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Momentos cretinos no esporte



Duas notícias do esporte me deixaram indignado esta semana. O curioso é que ambas apresentaram um aspecto em comum: influências indesejáveis e nefastas de elementos externos ao mundo desportivo.

A primeira delas veio do tênis. Esta semana está acontecendo um rico e importante torneio da turnê feminina de tênis: o WTA de Dubai, realizado na capital dos Emirados Árabes Unidos. Até aí nada de mais, países pródigos de petrodólares - como Emirados Árabes, Qatar e Bahrein - estão, hoje em dia, vidrados na idéia de organizarem grandes eventos esportivos. Pois bem, eis que atualmente há no tênis feminino uma competitiva jogadora israelense chamada Shahar Peer (21 anos), número 48 do ranking da WTA. Já vai sendo possível imaginar o que aconteceu?! Sim, isso mesmo. Simplesmente, Dubai negou visto à tenista israelense. Justificativa das autoridades dos Emirados Árabes: cidadãos de Israel não podem ingressar no país. E Peer acabou ficando de fora do torneio.

Série de absurdos: 1) Se dado país organiza um evento esportivo, ele, obrigatoriamente (minha opinião), deve aceitar a presença de atletas de quaisquer países. 2) Seguindo a mesma linha de raciocínio do ponto 1. Se determinado país tem algum litígio ou qualquer outro tipo de animosidade com outrem, não deve organizar grandes eventos internacionais. Evitando-se com isso problemas diplomáticos desnecessários. Em suma, os Emirados Árabes Unidos têm todo o direito de não aceitar cidadãos de israel ou, genericamente, judeus em seu território. Mas para tanto não devem organizar eventos esportivos internacionais. 3) Os torneios da ATP (masculino) e da WTA (feminino) genericamente são chamados de "Aberto". Isso se explica exatamente porque os torneios são "abertos" a todos aqueles que têm ranking suficiente para disputá-los. Indiscriminadamente! 4) Atualmente, Dubai sedia um Grande Prêmio de Fórmula 1. Vamos imaginar que desponte nos próximos tempos um grande piloto israelense na categoria máxima do automoblismo mundial. Ora, seguindo-se as determinações do governo dos Emirados Árabes, esse piloto, simplesmente, estaria proibido de disputar o GP de Dubai. Ridículo! 5) O esporte, embora completamente emaranhado na política (assim como tudo na vida), tem entre seus papéis o de dar lições aos poderosos do mundo. Sim, todos aqueles românticos lugares-comuns do tipo "convivência pacífica dos povos", ou coisa que o valha, fazem (ou deveriam fazer) algum sentido prático nos rumos da humanidade.

Detalhe. Estou dizendo tudo isso, mas sou completamente simpático à causa palestina. Por outro lado, não nutro lá grande simpatia pelo Estado de Israel. De todo modo, não posso concordar com essa aberração cometida pelas autoridades de Dubai. Esporte é esporte!

Para fechar esse assunto, vale mencionar que a jovem Shahar Peer parece ter uma ótima cabeça. Destaco duas declarações da tenista israelense que demonstram bem sua lucidez ao falar desse assunto delicado. A primeira se deu no momento em que a tenista ficou sabendo que teve o visto para Dubai negado. Disse Peer: "A política e a discriminação não deveriam ter lugar no tênis profissional e em nenhum outro esporte (...) quero agradecer de coração o apoio de meus amigos, fãs e companheiros. É um momento muito difícil pessoal e profissionalmente". A outra se deu no WTA de Auckland (Nova Zelândia), no início deste ano. Cerca de vinte ativistas políticos foram protestar contra os ataques de Israel a territórios palestinos durante um jogo da israelense no torneio. Ao ser indagada sobre o protesto, Shahar Peer se saiu com essa: "Não sou o governo de Israel e não represento Israel como política. Sou jogadora de tênis e é isso o que eu represento". Irretocável!

O segundo acontecimento esportivo cretino desta semana foi a retirada de 6 pontos do Vasco da Gama pelo Tribunal de Justiça Desportiva (TJD) do Rio Janeiro. É óbvio que parte de minha indignação reside no fato de eu ser vascaíno. Mas não é só isso. Esse fato deu margem a uma reflexão mais ampla acerca do código de justiça desportiva no Brasil e do futebol brasileiro como um todo.

Já há algum tempo venho percebendo o quão draconiana é a lei desportiva brasileira (a que pune atletas e treinadores, pois dirigentes e torcedores violentos continuam impunes). Por qualquer cutucão, determinado jogador pega 120 dias de gancho. Por qualquer declaração mais contundente, dado treinador é punido por vários dias. Os auditores do STJD ou TJDs se sentem os reis da cocada preta (vide o abominável Luiz Zveiter).

Vamos a alguns dos equívocos do Código Brasileiro de Justiça Desportiva (CBJD). 1) Futebol é tensão e contato físico. Na Europa, por exemplo, empurrões são amplamente permitidos pelas arbitragens e tribunais. Pequenas agressões não são severamente punidas. Aqui no Brasil quando dois jogadores simplesmente se encaram o árbitro os expulsa e os auditores os pune. Menos né juristas desportivos... menos!

2) Caso Gama 1999 (redundou na Copa João Havelange 2000). O São Paulo teve um caso descoberto de jogador com idade adulterada (o popular "gato") no campeonato brasileiro de 1999. Tratava-se do obscuro Sandro Hiroshi. Eis que o medíocre nipo-brasileiro participou do jogo São Paulo 6 x 0 Botafogo dentro daquele campeonato. Os jogos que Hiroshi participou antes desse haviam sido prescritos, ou seja, expiraram seus prazos de punição. Pois bem: os "brilhantes" auditores do STJD decidiram (com base na hermenêutica, já que neste caso o regulamento era dúbio e confuso) que o São Paulo deveria ser punido por ter o "desleixo" de contratar um "gato". Logo, o São Paulo perdeu os 3 pontos de sua vitória por 6x0 (discutível) e o Botafogo ganhou os 3 pontos num jogo em que tomou de 6, sem grande interferência do glorioso Sandro Hiroshi (absurdo). Esses 3 pontos, justamente, foram os que livraram o Botafogo do rebaixamento naquela ocasião e, conseqüentemente, rebaixaram o Gama. O final da história é a que todos sabem. Simpatizantes do Gama acionaram a justiça comum e o clube do DF foi obrigado a ser incluído na elite do futebol brasileiro no ano seguinte. Nota: o veredito se deu às vésperas do início do campeonato brasileiro de 2000, logo, a competição foi obrigada a ter seu nome modificado para a inclusão do Gama. Coisas da tradição cartorial do país dos bacharéis!

3) Caso Jéferson 2009 (redundou na retirada de pontos do Vasco no TJD-RJ). O jogador (muito ruim, por sinal), saiu em litígio do Brasiliense em 2005. Ele alegou que não recebia alguns direitos trabalhistas há 3 anos e obteve, à época, sua liberação na justiça do trabalho do Distrito Federal. O Brasiliense recorreu e, quase quatro anos depois, o mesmo TRT-DF deu ganho de causa ao clube de Brasília. Mas em janeiro, o Vasco conseguiu uma liminar no TRT-RJ e Jéferson foi para o jogo de estréia do Vasco no campeonato carioca. A Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (FERJ) não reconheceu a liminar e denunciou o Vasco no TJD. O Vasco perdeu o referido jogo, o Jéferson não jogou nada e mesmo assim o Vasco perdeu os seis pontos (e por 7 votos a 1!!!!!!!).

Se fosse só isso...! Com a decisão do dia 17 de fevereiro constatou-se que o misto de vírus e câncer "Euvírus Miranda" goza de total prestígio na FERJ e influencia fortemente o TJD-RJ. Uma lástima! O futebol carioca (e o Vasco em especial) ainda continua vítima do maldito "sapo gordo fumante de charuto". Euvírus mostrou todo seu "vascainismo" e mais uma vez prejudicou a instituição Vasco da Gama em nome de uma guerra pessoal com o atual presidente do clube, Roberto Dinamite. E os auditores... não entendo porque se curvam a Euvírus... medo, rabo preso... vai saber. Durante a semana, ouvi na CBN um ex-auditor do TJD dizendo que casos como o de Jéferson sempre foram recorrentes no futebol carioca e sempre passaram impunes.

O fato é que mais uma vez a decisão no famoso "tapetão" valeu mais do que o resultado de dentro de campo. Mais uma vez a política (nesse caso a política baixa e rasteira, a politicagem) passou por cima do esporte. Uma pena. Pode parecer indignação mesquinha de torcedor que sentiu prejudicado, mas foram as indignações do notório flamenguista Renato Maurício Prado e do corinthianíssimo Juca Kfouri que me deixaram verdadeiramente indignado. Trata-se, pois, de uma questão de moralidade e decência e não simplesmente coisa de torcedor.

Enfim... o Vasco promete recorrer ao STJD (instância superior do direito desportivo brasileiro) e paralisar o campeonato carioca de 2009. E assim caminha o futebol brasileiro em pleno século XXI!

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Efeitos do aquecimento global no Aberto da Austrália



Dois acontecimentos chamaram-me muito a atenção nos últimos dois dias no Aberto da Austrália. Dois tenistas, que estavam muito bem em seus respectivos jogos, sucumbiram ao calor de Melbourne e abandonaram suas partidas.

Segunda-feira, a bielo-russa Victoria Azarenka fazia uma partidaça contra a estadunidense Serena Williams. No primeiro set, a bela Azarenka, de apenas 19 anos, destruiu Serena, vencendo com propriedade por 6/3. Mas a partir do início do segundo set a bielo-russa começou a dar sinais de extremo cansaço. Tanto é verdade que quando perdia por 2 games a 1, ela começou a passar mal, vomitando e chorando. Logo após isso, a jovem tenista foi atendida nos vestiários. Ela voltou logo em seguida e demonstrou claramente que não teria condições de terminar a partida. Azarenka estava tão tonta, que parecia que a qualquer momento poderia desabar em quadra. Deu medo e a apreensão tomou conta de todos os presentes na quadra, inclusive de sua adversária, Serena Williams. A bielo-russa, mesmo com uma condição física deplorável, ainda permaneceu em quadra por alguns games. E quando o placar apontava 4/2 para Serena, Azarenka desistiu da partida e saiu de quadra aos prantos, acompanhada pela equipe médica do torneio (foto). Temperatura em quadra: 52° C.

Partiu o coração ver Victoria Azarenka chorando feito uma criança. É muito duro, para qualquer esportista, chegar preparadíssimo (a) para um evento e capitular diante de um problema físico. Foi o caso de Azarenka, que chegou muito bem para o Aberto da Austrália, tendo, inclusive, vencido há poucas semanas um torneio em Brisbane, no mesmo país. Mas ela tem apenas 19 anos e acho (torço também) que ela vai muito longe em sua promissora carreira. Menos azar para Azarenka (essa foi inevitável).

No dia seguinte, terça-feira, algo muito parecido aconteceu com o sérvio Nowak Djokovic, número 3 do mundo. No início de sua partida contra o estadunidense Andy Roddick, os termômetros da quadra apontavam 54° C. Djokovic venceu o primeiro set por 7/6 e perdeu o segundo por 6/4. Até aí o jogo estava bom e equilibradíssimo e ambos tenistas estavam bem fisicamente. Porém, no terceiro set, Djokovic começou a sentir o calor que a essa altura (pasmem) estava em 58° C. Impressionante! Quando o narrador e o comentarista disseram que era essa a temperatura dentro da quadra, na hora não acreditei. Mas logo depois as câmeras mostraram o termômetro instalado dentro da arena. E era verdade, no terceiro set a temperatura da quadra era de 58° C. Sendo assim, o sérvio perdeu o terceiro set por 6/2 e abandonou a partida no início do quarto, quando perdia por 2/1.

Alguns questionam o caráter e o espírito esportivo de Djokovic, já que ele possui um histórico de alguns abandonos em sua carreira. E sempre quando está perdendo e se vê numa situação irreversível. Acho um pouco leviano dizer isso. Basta ver os olhos do sérvio na foto acima. Os mesmos que questionam Djokovic, elogiaram o comportamento do argentino Juan Martín Del Potro. No mesmo dia, Del Potro foi trucidado pelo suíço Roger Federer por 3 sets a 0, parciais de 6/3, 6/0 e 6/0. No jargão do tênis tomou uma bicicleta, ou seja, dois pneus (6/0 e 6/0). Mesmo assim, o argentino, honrosamente, terminou a partida e respeitou o público que pagou ingresso em Melbourne. Não sei não. Acho que o caso de Djokovic foi diferente e antes de respeitar o público ou coisa que o valha, o atleta tem que respeitar sua própria integridade física. Quando não dá, não dá.

Isto posto, a discusssão é: o que fazer com o esporte quando o calor estiver intenso? Cancela-se o evento esportivo se os termômentros marcarem temperaturas exageradamente absurdas? Difícil responder. Se por um lado não restam dúvidas de que a saúde dos atletas deve ser priorizada, por outro, o esporte (bem como o show, diriam João Bosco e Aldir Blanc) tem que continuar. De todo modo, no caso do Aberto da Austrália, a organização deste Grand Slam tem sido extremamente incompetente. As duas quadras principais do torneio possuem tetos retráteis, daqueles que abrem e fecham. Logo, o que custa fechar o teto da arena para amenizar o calor, quando a temperatura superar os 45° C, por exemplo? Eles estão querendo matar um tenista? Ou estão querendo prejudicar tenistas oriundos de regiões gélidas? Ora, Azarenka é bielo-russa e Djokovic é sérvio, países notadamente de baixas temperaturas.

Ainda faltam cinco dias para o fim do Aberto da Austrália. Vamos ver as providências dos organizadores do torneio, uma vez que a expectativa meteorológica é de que o calor aumente na Austrália, nos próximos dias. Vamos acompanhar e semana que vem estarei de volta fazendo um balanço do primeiro Grand Slam do ano. Até lá!

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Pra não dizer que não falei das flores




No último dia 13, completaram-se 40 anos da decretação do Ato Institucional n° 5, para muitos o ato mais autoritário da história política brasileira. O decretum terrible, nas palavras do historiador Carlos Fico. Para Elio Gaspari, o ato iniciou uma nova fase dentro da ditadura militar brasileira, a Ditadura Escancarada. Em suma, decretou-se o golpe dentro do golpe.

Com efeito, o AI-5 foi gestado pelo menos duas décadas antes. Os contatos das forças armadas brasileiras com as estadunidenses durante a Segunda Guerra Mundial nutriu uma grande admiração daquelas em relação a estas. Dessa forma, já no imediato pós-guerra, em 1949, foi criada no Brasil a Escola Superior de Guerra (ESG). Coube a ESG a formulação da chamada Doutrina de Segurança Nacional e Desenvolvimento. Essa doutrina esmiuçou no Brasil vários elementos típicos do período da Guerra Fria. Termos como "inimigo interno", "defesa nacional", "guerra total", "império soviético", "contra-revolução" deram o tom das elaborações da ESG.

Mas o que isso tem a ver com o AI-5? Ora, o AI-5 abarcou, aprofundou e decretou todos esses elementos trabalhados pela ESG. O decretum terrible visou um controle quadripartite da sociedade brasileira, a saber: controle político, econômico, psicossocial e militar. Tudo isso refere-se frontalmente à Doutrina de Segurança Nacional e Desenvolvimento.

Viajemos então ao ano de 1968. Os militares da chamada linha dura (que haviam chegado ao poder com Costa e Silva em 1967) precisavam de um mote para colocar integralmente em prática os pressupostos da referida doutrina e, consequentemente, fechar ainda mais o regime. De fato, 1968 foi um ano bastante turbulento e, portanto, pretextos não faltaram para o golpe dentro do golpe. Inclusive, há documentos que atestam que o AI-5 já estava pronto em julho de 1968. Mas a linha dura esperava o momento certo. E ele começou a ganhar corpo em setembro. Poucos antes das comemorações de 7 de setembro, o deputado Márcio Moreira Alves (MDB-GB) fez um discurso inflamado e provocativo na tribuna da Câmara dos Deputados. Nele, Moreira Alves insuflou a população brasileira a boicotar os desfiles de 7 de setembro. E ainda propôs às jovens brasileiras que não se envolvessem com os jovens militares, os cadetes. O interessante é que o discurso não teve efetivamente maiores pretensões, tanto é que os jornais do dia seguinte não deram nenhuma repercussão ao caso. Não obstante, poderia ser exatamente o pretexto que os militares precisavam.

Sendo assim, a cúpula do governo Costa e Silva pediu à Câmara dos Deputados uma licença para que Márcio Moreira Alves pudesse ser processado. Após os trâmites regimentais da Câmara, enfim no dia 12 de dezembro foi feita a votação acerca da licença. A maioria dos deputados foi favorável à continuidade incólume do mandato de Moreira Alves. O detalhe é que o regime tinha confortável maioria nas duas casas, logo, muitos deputados arenistas votaram contra o governo.

Indignado com a decisão, o presidente Costa e Silva convocou uma reunião do Conselho de Segurança Nacional (cúpula militar e cúpula do governo). Era a "Missa Negra" ou a "terrível noite que durou dez anos". Palco: Palácio Laranjeiras. Atores: presidente da república, vice-presidente da república, principais ministros e principais líderes militares. Saldo da reunião: decretação do Ato Institucional n° 5. Tempo de validade do ato: indeterminado.

O Ato Institucional n° 5 foi simplesmente a consagração do "anti-direito". Com ele o presidente da república podia dissolver o Congresso Nacional, qualquer Assembléia Legislativa ou qualquer Câmara Municipal por tempo indeterminado. Podia cassar direitos políticos, tendo o cidadão mandato ou não. Podia demitir ministros do Supremo Tribunal Federal. Podia demitir qualquer servidor público (civil ou militar), sem qualquer processo, sob a simples alegação "a bem do serviço público". Podia fixar residência para qualquer cidadão, tipo: "você só pode morar ali". Podia vetar a locomoção de qualquer cidadão, tipo: "você só viaja dentro do país ou para o exterior com a autorização do governo". Podia legislar por decreto-lei.

Além disso tudo, o decretum terrible também proibiu qualquer reunião de cunho político, recrudesceu a censura e estabeleceu a censura prévia. As arbitrariedades não paravam por aí. O AI-5 ainda cassou o habeas corpus em casos de crime político. Em outras palavras, militantes políticos enquadrados na Lei de Segurança Nacional não podiam responder o processo em liberdade. Aliás, os primeiros 15 dias os presos passavam incomunicáveis. Elementar: eram nesses dias que as torturas corriam soltas.

No final de 1978 o AI-5 foi revogado. Felizmente, o Brasil virou essa página infeliz de nossa história, como diria Chico Buarque. Mas é imperativo visitarmos todas as páginas do livro chamado Brasil, inclusive as páginas infelizes. E por essas e outras é que temos que concordar com o ex-premier britânico Winston Churchill: "a democracia é o pior dos regimes, com exceção de todos os demais"!

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Da Constituição Cidadã


No último mês de outubro, mais precisamente no dia 5, a Constituição de 1988 completou 20 anos de sua promulgação. Há o que comemorar, afinal, nunca antes na história desse país (como diria o presidente Lula) o país viveu 20 anos ininterruptos de efetiva democracia. E este fato, sem dúvidas, tem muito a ver com a chamada Constituição Cidadã.

A carta de 1988, depois de 21 amargos anos de ditadura, garantiu - com todas as letras - liberdades individuais e coletivas e a efetividade da democracia brasileira. Aliás, a Constituição de 1988 - ao contrário de constituições anteriores, no Brasil e no mundo - apresenta os direitos e garantias fundamentais antes da organização do Estado e dos poderes. Isto tem um peso simbólico muito significativo. No fundo, o ser humano teve prevalência sobre o Estado.

Também são marcantes, na Constituição de 1988, os primeiros quatro artigos: referentes aos princípios fundamentais. Nesses artigos o Estado Brasileiro se compromete com a cidadania; com a dignidade da pessoa humana; com a construção de uma sociedade livre, justa e solidária; com o desenvolvimento nacional; com a erradicação da pobreza; com a redução das desigualdades sociais e regionais; e com a promoção do bem de todos. Percebe-se, portanto, além de boas doses de humanismo, uma quantidade interessante de desenvolvimentismo, estatismo e nacionalismo. Curiosamente, uma antítese ao neoliberalismo, que se iniciaria poucos anos depois no Brasil.

Mas como essa faceta progressista da Constituição se deu e se explica? Vamos lá. Primeiramente, houve, por parte dos constituintes, um forte olhar ao passado. A ditadura massacrara direitos e liberdades e adotou posturas antinacionalistas e "entreguistas", aliás, um jargão muito comum à época. Nesse sentido, grande parte dos constituintes fizeram questão de, expressamente, realçar o humanismo e o nacionalismo. Inclusive, muitos (geralmente, direitistas), hoje em dia, criticam a Constituição de 1988, dizendo que os constituintes olharam muito para o passado e pouco para o futuro.

Em segundo lugar, houve um desejo muito forte do povo brasileiro de que todos os direitos... tudo o que fosse possível fosse contemplado pela constituição. As pressões populares, durante a Assembléia Nacional Constituinte, eram para que as garantias fossem para aquele momento, para já. A preocupação tinha razão de ser, pois sempre foi muito comum que dispositivos constitucionais a serem apreciados por lei complementar ou lei ordinária, não fossem nunca regulamentados.

A terceira razão se relaciona diretamente com a própria história da Assembléia Nacional Constituinte. Sua instalação se deu no início de 1987, já que os constituintes foram escolhidos nas eleições de 1986. Durante praticamente todo o ano de 1987 (até outubro, aproximadamente), as esquerdas tiveram mais voz na constituinte. A presença do MST, da CUT e de outros movimentos sociais no Congresso Nacional foi marcante nesse período. Outro dado interessante de 1987, é que, nesse ano, a constituição começou a assumir uma orientação parlamentarista. Daí a inclusão da medida provisória no texto constitucional. A MP é um dispositivo típico do sistema parlamentarista, a ser usado pelo primeiro-ministro em temas de relevância e urgência. Alguns setores da sociedade queriam dar o máximo de poder possível ao parlamento, nesse sentido eram simpáticos ao parlamentarismo.

Contudo, no final de 1987 a direita se organizou e reagiu. Surgiu o Centrão, uma aglutinação suprapartidária conservadora, ligada ao governo Sarney. Seus membros pertenciam, sobretudo, ao PFL (hoje, DEM), ao PDS (hoje, PP), ao PTB e a setores mais à direita do PMDB. Eles ecoavam os anseios da FEBRABAN, da UDR, da TFP... Portanto, de "Centrão" não tinha nada, era "Direitão" mesmo. Mas é assim, no Brasil ninguém assume ser de direita. Ou se diz de centro ou fala que a dicotomia esquerda/direita é algo já superado. Enfim... De todo modo, o Centrão a partir de sua criação passou a prevalecer na constituinte. Dessa maneira, o mandato de Sarney permaneceu sendo de 5 anos e avanços sociais foram freados, notadamente, a reforma agrária. Quanto ao sistema de governo, no final das contas, com a participação decisiva do Centrão, a vitória foi do presidencialismo. Todavia, a medida provisória foi mantida, o que para muitos, torna o sistema brasileiro uma mistura entre parlamentarismo e presidencialismo, uma vez que o presidente da república é capaz de legislar. Já em 1993, o povo brasileiro, em plebiscito, optou pela manutenção do sistema presidencialista.

De uma maneira geral, gosto da Constituição de 1988. Ela á uma carta avançada e progressista em muitos de seus pontos. Não chega a ser um documento de esquerda, apesar de seu viés humanista e estatista. Apesar de o texto por diversas vezes mencionar a igualdade e a justiça social como compromisso do Estado, não impõe, efetivamente, maiores obrigações a este. Além disso, mantiveram-se intactas todas as bases do capitalismo brasileiro. De todo modo, a constituição salientou fortemente as garantias individuais e coletivas e protegeu a democracia brasileira e suas instituições. Nesse caso, ela merece sim o epíteto: Constituição Cidadã!

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

E Obama venceu...


O democrata Barack Obama é o novo presidente dos EUA. Depois de oito terríveis anos de governo Bush, eis que a maioria dos estadunidenses e grande parte mundo respiram mais aliviados. O "dream" de Martin Luther King Jr. se concretiza e completa seu ciclo. Um representante negro dos EUA, enfim, atinge o ápice dos direitos civis e políticos, pelos quais tanto lutou Luther King. Sim, a eleição de Obama é um acontecimento histórico e emblemático, pois, simbolicamente, dentro da história norte-americana, a página do racismo foi virada.

A eleição presidencial de 2008 foi uma das poucas da história estadunidense a não deixar margem para dúvidas. Barack Obama teve mais votos populares (aproximadamente 53% dos votos, contra 47% de McCain); obteve vitória em pelo menos 28 dos 51 estados norte-americanos; entre os sete maiores e mais importantes estados, a saber: Califórnia, Texas, estado de Nova Iorque, Flórida, Illinois, Pensilvânia e Ohio, Obama só não venceu no Texas, ah o Texas... ; e conquistou pelo menos 338 delegados no colégio eleitoral, sendo que eram necessários 270 dos 538 delegados. Por tudo isso, Obama, o 44° presidente dos EUA, chega bastante legitimado ao poder.

Gostei muito da vitória de Obama. O novo presidente tem uma belíssima biografia e idéias interessantes e progressistas. Por outro lado, vem respaldado por boa parte dos setores econômicos dominantes dos EUA, prova disso é que arrecadou mais de 750 milhões de dólares durante sua campanha. De todo modo, Obama se posicionou desde sempre contra a Guerra do Iraque, participou ativamente de vários projetos sociais em Chicago e teve uma atuação muito respeitável no senado dos EUA. Quais serão suas práticas enquanto presidente... a conferir. Torço muito para que ele mantenha a coerência.

O presidente Lula gostou da eleição de Barack Obama. A presidenta Cristina Kirchner e o primeiro-ministro britânico, Gordon Browm, também. Silvio Berlusconi não gostou muito, Álvaro Uribe nem um pouco. Nicolas Sarkozy não sabe bem se gostou ou não. Hugo Chávez e Evo Morales acho que, no fundo, gostaram... eles voltarão a dialogar com os EUA. A imprensa cubana olhou com reservas, mas sem dúvidas preferia Obama à McCain. O governo cubano não se posicionou.

Assim termina mais uma eleição presidencial nos EUA. Sufrágio indireto é seu modelo; bipartidarismo engessado, sua realidade; ausência de uma justiça eleitoral federal, algo um tanto esquisito; pleito em uma terça-feira, algo bizarro; ausência de horário eleitoral gratuito no rádio e na TV... não me parece algo tão democrático, pois favorece amplamente o poder econômico. Mas é assim, nosotros brasileños só nos damos o direito de meter o bedelho nas democracias venezuelana, boliviana e equatoriana. Dessa maneira, a democracia estadunidense parece "perfeita" e inquestionável. No que se refere a ela, damos uma lição de respeito à autodeterminação dos povos!

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Eleições 2008: um breve balanço




Realizaram-se, no último domingo (05/10), eleições municipais em todo o Brasil, à exceção de Fernando de Noronha e do Distrito Federal. Delas se puderam extrair algumas novidades. Mas houve também a ratificação de alguns aspectos importantes nas urnas.

O principal deles é a confirmação insofismável de que dado mandatário não transfere votos, facilmente, a outra pessoa. Isso se revelou muito claramente na eleição para a prefeitura de Belo Horizonte. Personagens centrais: o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, o atual prefeito de BH, Fernando Pimentel e o candiadato à prefeitura, Márcio Lacerda. Aécio (PSDB), nas palavras de Juca Kfouri, um misto de socialite e yuppie, e Pimentel (PT) se uniram e juntos resolveram lançar e apoiar a candidatura do magnata Márcio Lacerda (PSB). Disso, surgiu uma mais do que improvável aliança entre PT e PSDB, já que ambos protagonizam a maior rivalidade partidária da história recente da política no Brasil. Mas até aí nada de mais, alianças casuístas não são nenhuma novidade na política brasileira.

O que de fato surpreendeu foi o equilíbrio entre Lacerda e o candidato Leonardo Quintão (PMDB) no primeiro turno. Os dois terminaram empatados tecnicamente e disputarão a prefeitura no segundo turno. Ora, houve quem dissesse que Aécio e Pimentel, dois dos grandes líderes da política de BH e de Minas, juntos conseguiriam eleger até um poste. O povo de Belo Horizonte mostrou que não é bem assim e o páreo está completamente indefinido. Como diria Mané Garrincha: "só faltou combinar com os russos"!

Há outros exemplos parecidos na história política brasileira. Nas eleições presidenciais de 1960, Juscelino Kubitschek, popularíssimo àquela altura, não conseguiu eleger seu sucessor, o marechal Henrique Teixeira Lott. Aqui no DF, em 1994, o à época todo-poderoso governador Joaquim Roriz não elegeu seu afilhado político, Valmir Campelo. Nessas ocasiões, Jânio Quadros e Cristovam Buarque, respectivamente, sagraram-se vencedores.

Outros municípios: na cidade de São Paulo, vale mencionar as derrotas acachapantes do malufismo e da opus dei. Paulo Maluf (PP) e Geraldo Alckmin (PSDB) tiveram votações bem abaixo de suas expectativas. O segundo turno terá de um lado o atual prefeito Gilberto Kassab (DEM), apoiado pelo governador do estado de São Paulo, José Serra (PSDB). Do outro, a ex-prefeita Marta Suplicy (PT), apoiada pelo presidente Lula. Favoritismo para Kassab, uma vez que receberá o apoio de Alckmin, o terceiro colocado. Vale lembrar também, que Lula, embora tenha vencido com certa folga as eleições presidenciais de 2006, perdeu na capital paulista, nos dois turnos, exatamente para Geraldo Alckmin.

No Rio, vale destacar a surpreendente escalada de Fernando Gabeira (PV), que irá ao segundo turno. Ele enfrentará Eduardo Paes (PMDB), candidato que terá o apoio expresso do governador Sérgio Cabral e velado do presidente Lula. Grandes derrotados: o senador Marcelo Crivella (PRB) e sua Igreja Universal do Reino de Deus. Além do atual prefeito, César Maia (DEM), que viu sua candidata, Solange Amaral, ter um desempenho pífio.

Em Salvador, a exemplo das eleições de 2006, mais uma derrota do carlismo. O outrora favorito, ACM Neto (DEM), sequer chegou ao segundo turno. Sendo assim, a disputa será entre João Henrique Carneiro (PMDB), apoiado pelo ministro da integração nacional, Gedel Vieira Lima, versus Walter Pinheiro (PT), que terá o apoio do governador Jaques Wagner, seu correligionário. O presidente Lula, provavelmente, ficará neutro. Talvez apoie veladamente o candidato do PT.

Em Porto Alegre, a disputa em segundo turno será entre o atual prefeito José Fogaça (PMDB) e Maria do Rosário (PT). Apesar da candidata petista ter ficado em segundo lugar no primeiro turno, ela terá grandes chances de vitória no segundo. Isso porque a terceira colocada, Manuela d'Ávila (PCdoB), e a quarta, Luciana Genro (PSOL), tiveram votação expressiva e pertencem a partidos de esquerda, tal qual Maria do Rosário. Portanto, o voto de ambas deverão em maioria migrar para a candidata do PT.

Então é isso. Como sempre gosto de me posicionar sobre o que escrevo. Estou com Marta, em São Paulo; Gabeira, no Rio; Walter Pinheiro, em Salvador; e Maria do Rosário, em Porto Alegre. Em Belo Horizonte, não tenho preferência por nenhum dos dois candidatos. Ah, já ia me esquecendo... entre as sempre presentes patacoadas e fanfarronices eleitorais, destaca-se a eleição de Túlio Maravilha. O centroavante do Vila Nova foi o terceiro vereador mais votado de Goiânia e entre 2009 e 2013 "representará" seus habitantes na câmara municipal. Está virando moda, em 2006, o ex-centroavante do Paysandu, Robson, o Robgol, foi eleito deputado estadual no Pará. Tragicômico!

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Complexo Olímpico de Vira-Latas?






Encerraram-se no último domingo os Jogos Olímpicos de Pequim 2008. O Brasil terminou os jogos na 23ª colocação, com 3 medalhas de ouro, 4 de prata e 8 de bronze, somando 15 medalhas no total. O presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Carlos Arthur Nuzman, considerou como bom o desempenho brasileiro. O presidente Lula considerou razoável. A imprensa se dividiu, houve quem achou boa a participação do Brasil, por outro lado teve quem achou medíocre. Na minha opinião o desempenho foi razoável, mas poderia ter sido bem melhor. A gente bronzeada poderia ter mostrado mais o seu valor. Será que o que atrapalha o Brasil seria uma espécie de complexo olímpico de vira-latas?

Vamos à história recente da participação olímpica brasileira. Os jogos de Atlanta 1996 marcaram o início de um mínimo projeto olímpico brasileiro. Nesta edição, o Brasil terminou os jogos em 25° lugar (3 ouros, 3 pratas e 9 bronzes, 15 no total). Quatro anos mais tarde, Sydney 2000, o Brasil decepcionou e fechou os jogos na péssima 53ª posição (nenhum ouro, 6 pratas e 6 bronzes, somando 12 medalhas no total). Atenas 2004 marcou o melhor desempenho brasileiro, já que o Brasil ficou na 16ª colocação (5 ouros, 2 pratas e 3 bronzes, 10 medalhas no total). Antes de Atlanta 1996 mal havia investimento e planejamento no esporte brasileiro. Os resultados até Barcelona 1992 foram pífios, sobretudo no tocante ao total de medalhas conquistadas. Em suma, somente verdadeiros abnegados traziam medalhas para o Brasil até 1996.

Os resultados melhoraram a partir de 1996 graças a dois fatores primordiais. Primeiro: os investimentos estatais aumentaram e aumentam significativamente durante os governos Fernando Henrique e Lula. Segundo: a boa gestão de Carlos Arthur Nuzman à frente do COB. O dirigente é tido como o transformador do vôlei brasileiro, uma vez que presidiu a Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) entre 1975 e 1997. Com o ótimo desempenho do voleibol brasileiro a partir dos anos 80/90, Nuzman recebeu a missão de encabeçar o projeto olímpico do Brasil. Em 1990, ele se tornou vice-presidente do COB e em 1995 foi nomeado o presidente da instituição.

Entre outros fatores que tem melhorado o desempenho olímpico brasileiro, destaca-se a Lei Agnelo/Piva. Esta lei, sancionada em 2001, estabelece o montante mínimo dos recursos provenientes das loterias federais a ser repassado ao COB. Em 2004, surgiu a lei que instituiu a Bolsa-Atleta. Essas bolsas são fornecidas pelo Ministério do Esporte e seus valores vão de R$ 300 à R$ 2.500 para cada atleta, conforme sua categoria (estudantil, nacional, internacional e olímpica). Por fim, e à título de curiosidade, vale mencionar as principais empresas que investem no esporte olímpico brasileiro. Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Petrobrás, Correios, Infraero e Eletrobrás estão entre as empresas estatais. Olympikus, Sadia, Samsung, Bradesco, Grupo Pão de Açúcar, Sol e Oi estão entre as empresas privadas. Estas investem no esporte, seduzidas por incentivos fiscais, formalizados com a Lei de Incentivo ao Esporte, sancionada em 2006.

Isto posto, voltemos ao desempenho brasileiro em Pequim. Ele foi razoável porque o Brasil efetivamente se consolidou no grupo das potências olímpicas médias. Porém, tendo em vista o expressivo aumento dos investimentos em esporte nos últimos anos (estima-se que 1,2 bilhões de reais foram gastos em esporte, pelos cofres públicos, nos últimos quatro anos), o desempenho não foi satisfatório. Quanto a isso, sem dúvidas, há que se ter mais transparência na questão da aplicação dos recursos públicos direcionados ao esporte. Mas, não é exatamente isso que quero discutir neste texto. Outrossim, quero avaliar a participação brasileira à luz do tal complexo de vira-latas. Esta expressão foi cunhada pelo saudoso dramaturgo Nelson Rodrigues e referia-se à seleção brasileira de futebol pré-1958. Dizia ele que antes da Copa do Mundo de 1958 os brasileiros já eram os melhores do mundo no futebol. Entretanto, segundo Nelson, o que atrapalhava a seleção brasileira era um detestável complexo de vira-latas ante as principais potências futebolísticas do mundo. Assim, com o título de 1958, o Brasil teria se livrado de vez desse complexo. A partir dali o Brasil sempre figuraria entre os melhores. Isto foi comprovado com os outros quatro títulos mundiais que vieram posteriormente. Mas e nos Jogos Olímpicos? Como puderam tantos campões mundiais do Brasil terem fracassado nos jogos? Seria um complexo olímpico de vira-latas?

Penso que, em parte, sim. Antes dos jogos de Pequim, eu cravei - num cálculo otimista, mas embasado tecnicamente - em dez medalhas de ouro para o Brasil. Apostei no ouro (que é que vale no quadro de medalhas) em: Thiago Camilo (atual campeão mundial de judô entre os meio-médios); João Derly (atual bi-campeão mundial de judô entre os meio-leves); time de vôlei masculino (ganhou tudo nos últimos sete anos); time de vôlei feminino (atual campeão do Grand Prix e atual vice-campeão mundial); seleção feminina de futebol (atual vice-mundial e vice-olímpica); Robert Scheidt (campeão mundial em 2007 pela Classe Star e que já havia ganhado tudo pela Classe Laser); Rodrigo Pessoa (atual campeão olímpico no hipismo); Ricardo e Emanuel (atuais campeões olímpicos no vôlei de praia); Diego Hypólito (atual campeão mundial de ginástica artística no solo); e Jade Barbosa (com 16 anos foi terceira colocada no último mundial de ginástica artística e é tida como uma atleta em ascensão). Além desses, por seus bons resultados nas últimas competições mundiais, apostei em outros potenciais medalhistas (podendo ser ouro, prata ou bronze), foram eles: Maurren Maggi, Fabiana Murer e Jadel Gregório (Atletismo); César Cielo, Thiago Pereira e Kaio Márcio (Natação); Leandro Guilheiro e Luciano Corrêa (Judô); Natália Falavigna (Taekwondo); futebol masculino; e vôlei de praia feminino. Acertei na mosca somente um ouro e cinco medalhas. De acordo com meu prognóstico a frustração foi grande, uma vez que ela é sempre proporcional à expectativa criada.

Por outro lado, da minha lista de "medalháveis", somente João Derly não ficou entre os primeiros. E dos dez ouros que apontei, seis trouxeram alguma medalha. Sendo assim, percebe-se que a despeito da falta de transparência da utilização das verbas públicas no esporte, o Brasil hoje em dia consegue ser competitivo em várias modalidades olímpicas. Contudo, é aí que vem o complexo de vira-latas. A expressão criada por Nelson Rodrigues se refere a alguém que é superior, mas não consegue concretizar sua superioridade. Vários atletas de outros países, nas mais diversas modalidades, lidam muito melhor com o favoritismo do que os brasileiros. Até mesmo no futebol, esporte em que o Brasil se transformou no país mais temido e respeitado do mundo, os brasileiros ainda têm uma seríssima dificuldade em lidar com o favoritismo. Das cinco copas que o Brasil ganhou, em quatro ele não chegou como favorito. A exceção foi 1962. Todavia, quando os jogadores chegam criticados e sob suspeita, geralmente, eles conseguem responder bem. Talvez, só no vôlei masculino (vamos ver a partir de agora no feminino) o Brasil, hoje em dia, lida bem com o favorismo.

Não há uma explicação exata para isso. Talvez um caminho seja a psicologia, mais precisamente a psicologia do esporte. O técnico da seleção feminina de vôlei, José Roberto Guimarães, exigiu do COB um psicólogo para trabalhar a parte emocional das jogadoras. Pelo visto a iniciativa deu certo. Outro fator, talvez, seja a falta de gana necessária para ser ouro e não somente medalhista. Simbolicamente, a imprensa também tem culpa nisso com o seu derrotista "o Brasil já garantiu ao menos a prata", quando o país chega a uma final olímpica. Ora, a prata não é nada no quadro de medalhas, já que um ouro vale mais do que cem medalhas de prata. O atleta, caso estivesse entre os favoritos, tem que sair insatisfeito quando conquistar apenas a prata ou bronze. O conformismo é o pior inimigo de um verdadadeiro campeão, vide o piloto Rubens Barrichello. É isso, o atleta brasileiro tem que ter mais vontade de ser ouro. Sabendo que no esporte tudo pode acontecer, mas com a cabeça voltada para o ouro. Chineses, estadunidenses e russos pensam assim. Com isso, China, EUA e Rússia sabem jogar muito bem os jogos olímpicos, leia-se quadro de medalhas.

Dois exemplos emblemáticos da fraqueza psicológica brasileira se deram com Jade Barbosa e Fabiana Murer. Jade chegou à Pequim com um impressionante despreparo emocional. Ela simplesmente chorou de desespero ao ser abordada por um batalhão de repórteres em seu embarque na China. Ora, assédio da imprensa é a coisa mais natural na vida de um grande atleta, caso de Jade Barbosa. Quem viu a cena percebeu nitidamente que a ginasta ainda não está preparada psicologicamente para ser uma grande campeã. Tomara que isso mude, já que Jade tem muito talento. Já o caso da Fabiana Murer, atleta do salto com vara, revelou uma falta de serenidade diante das adversidades. Obviamente, foi um absurdo, uma gafe monumental da organização dos jogos, o sumiço de uma de suas varas. Agora, seu desespero, diante da adversidade, foi de tal ordem que ela acabou se auto-derrotando. Quem assistiu às imagens, percebeu que ela não teria condições nenhumas de realizar um bom salto. Dito e feito. A fenomenal Yelena Isinbayeva, sua companheira de treinamentos durante alguns meses, disse depois que poderia emprestar sua vara sem nenhum problema. Fabiana não pensou nisso e acabou obtendo um resultado frustrante. Seu desespero foi compreensível, mas poderia ter sido evitado.

Os aspectos psicológicos têm de ser melhor trabalhados nos atletas olímpicos brasileiros. E isso é bastante paupável. Se a preparação técnica, que é a mais difícil, já tiver sido feita feita, o preparo emocional se torna um simples, mas importante detalhe. Isso nos atletas de ponta, nos olímpicos. Porque na base há ainda muitíssima coisa a ser feita. O modo pelo qual o Estado brasileiro trata o esporte, enquanto fator de inclusão social e saúde pública, é vergonhoso. Números da Organização Mundial de Saúde (OMS) apontam que para cada dólar aplicado no esporte de base, economiza-se três dólares em saúde pública. O Brasil ainda não olhou seriamente para isso. Esporte, educação e saúde, enquanto políticas públicas, devem caminhar sempre de mãos atadas. Portanto, mais do que tornar o Brasil uma potência olímpica, os investimentos públicos em esporte têm a capacidade de educar, incluir e promover saúde pública. Massificar a prática do esporte só traz o bem para a população de um país. Mas os investimentos nos esportes de alto rendimento - com o conseqüente sucesso olímpico - também são importantes. Primeiro porque incentivam a prática do esporte dentro do país. Segundo porque, simbolicamente, o êxito olímpico traz uma certa auto-estima para o povo. Terceiro porque o mundo, certamente, lança bons olhos ao país.

Em resumo é isso. No Brasil, o esporte deve ser trabalhado, na base, como elemento de bem-estar social. Na outra ponta, nos esportes de alta performance, como fator de auto-estima, coesão entre os brasileiros e, claro, lançamento de oportunidades de trabalho. Esses investimentos ajudarão, inclusive, na superação do tal complexo de vira-latas. Não só nos esportes, mas também em outros aspectos. Educação, saúde e auto-estima são a base de um país bem-sucedido. Como diz o célebre provérbio latino: "mens sana in corpore sano"!